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Mulher sentada à mesa da cozinha conversa com calma, com as mãos abertas, diante de alguém de costas.
Comunicação e relacionamentos

Josué 22:10–34

Perguntar antes de acusar

Josué, capítulo vinte e dois, versículos dez a trinta e quatro, mostra um povo pronto para ir à guerra por causa de um altar, e uma delegação que decide ouvir primeiro

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Quantas brigas começam de um mal-entendido. Uma mensagem sem tom, que foi lida de um jeito. Um silêncio que pareceu desprezo. Um comentário solto, repetido por outra pessoa. Um gesto que parecia ofensa e, na verdade, tinha uma razão que ninguém perguntou. A gente forma uma história na cabeça, reage a ela e, quando percebe, já está discutindo, ou rompendo, com base em algo que nem aconteceu. Esta história antiga mostra um grupo que estava a um passo de uma guerra, e o que mudou o rumo foi uma atitude simples: perguntar.

A Palavra de Deus

Provérbios, capítulo dezoito, versículo treze, em paráfrase editorial:

Quem responde antes de ouvir, comete loucura e passa vergonha.

Provérbios 18:13 · paráfrase editorial

O sábio descreve algo que quase todos já viveram: a resposta pronta, antes de entender o que foi dito.

O altar e a delegação

O relato está no livro de Josué. O povo de Israel tinha conquistado a terra de Canaã e se dividido em tribos. Três delas, Rúben, Gade e a metade de Manassés, tinham recebido terras do outro lado do rio Jordão. Depois de ajudarem as outras tribos na campanha, voltaram para as suas casas.

No caminho, ao chegar à beira do Jordão, na região de Canaã, os homens dessas tribos construíram um altar enorme, bem visível.

As outras tribos souberam: construíram um altar na frente da terra de Canaã. Pelo que entenderam, era um ato de rebeldia, uma forma de adorar fora do lugar combinado, o que a sua lei não permitia. Sentiram-se traídos. O texto diz que todo o povo se reuniu em Siló, para subir contra eles e lhes fazer guerra.

Pare aqui e repare: eles estavam prontos para lutar. Mas, antes, tomaram uma decisão. Em vez de marchar de uma vez, enviaram uma delegação: Finéias, filho do sacerdote, e dez líderes, um de cada tribo. Mandaram conversar.

A delegação chegou e falou com dureza: que transgressão é esta que vocês cometeram contra o Deus de Israel? Hoje vocês se afastaram do Senhor, construindo um altar para se rebelar contra ele. Lembraram episódios do passado em que a rebeldia de alguns trouxe prejuízo a todos. E ofereceram: se a terra onde vocês estão é impura, venham para o nosso lado.

A acusação foi dura. Mas o texto mostra o que aconteceu: os acusados responderam, e a resposta mudou tudo.

As três tribos disseram: o Senhor Deus sabe, e Israel também saberá. Se foi por rebeldia, que Deus não nos poupe hoje. E explicaram: não construímos o altar para oferecer sacrifícios. Construímos por medo: por receio de que, no futuro, os seus filhos digam aos nossos: que parte vocês têm no Senhor? O rio nos separa de vocês, e os seus filhos poderiam impedir os nossos de adorar. Por isso dissemos: vamos construir um altar, não para sacrifícios, mas para ser um testemunho entre nós e vocês, e entre as nossas gerações, de que também temos parte no Senhor.

Finéias e os líderes ouviram, e ficaram satisfeitos. Disseram: hoje sabemos que o Senhor está no meio de nós, porque vocês não cometeram esta infidelidade. Voltaram, contaram aos outros, e todos aceitaram a explicação. Ninguém falou mais em guerra.

As tribos que haviam construído o altar o chamaram Testemunho, porque, disseram, ele é um testemunho entre nós de que o Senhor é Deus.

Repare em quatro detalhes. A primeira reação era de guerra, e a decisão de perguntar veio antes. A acusação foi dura, mas dita cara a cara, a quem poderia responder. Os acusados explicaram o motivo real, que era o medo de serem esquecidos. E o que parecia rebeldia era, na verdade, um gesto de pertencimento.

O relato trata da unidade das tribos de Israel e do cuidado com a fidelidade, com linguagem religiosa e tribal de outro tempo. Ele não é um manual de comunicação. Aplicá-lo aos mal-entendidos das nossas relações é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena mostra a diferença que uma pergunta faz. As tribos tinham fatos: um altar existia. Mas tinham também uma interpretação: era rebeldia. Perguntar revelou que a interpretação estava errada. Muitos conflitos de casais, famílias, amizades e trabalhos funcionam assim: partimos de um fato e preenchemos o resto com suposição.

Algumas ideias práticas. Primeiro, separar o fato da interpretação. Ele chegou tarde: isso é fato. Ele não se importa comigo: isso é interpretação. Dizer em voz alta o fato, e perguntar a interpretação, muda a conversa: você chegou às onze, e eu fiquei preocupado. O que aconteceu?

Segundo, perguntar com curiosidade, e não com acusação. Há perguntas que são ataques disfarçados: por que você sempre faz isso? Uma pergunta honesta é aberta: me ajuda a entender? A delegação começou com acusação e, mesmo assim, ouviu a resposta. Dá para fazer melhor: começar pela pergunta.

Terceiro, ouvir até o fim. Os líderes de Israel escutaram a explicação inteira antes de decidir. Interromper, preparar a resposta enquanto o outro fala ou revirar os olhos fecha a conversa.

Quarto, estar disposto a mudar de ideia. Ouvir a explicação e reconhecer: eu entendi errado. Isso exige humildade, mas poupa muita dor.

Quinto, cuidar dos canais. Mensagens de texto perdem o tom, e muitos mal-entendidos nascem delas. Quando algo parece grave, vale ligar ou conversar pessoalmente. E, em grupos de mensagens e redes, antes de reagir ou repassar, perguntar: eu conheço a história inteira?

É preciso fazer uma ressalva. Perguntar e ouvir não obriga a aceitar tudo. Se o outro explica e o que explica é mentira, desculpa para controle, ou continua a magoar, você tem o direito de manter o limite. E, se o que existe é violência, ameaça ou humilhação, não é caso de mal-entendido: é de proteção. O Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência, o Disque cem recebe denúncias de violações de direitos humanos e o cento e noventa chama a polícia em caso de risco.

Se você se percebe reagindo sempre com raiva e suspeita, vale conversar com um psicólogo: muitas vezes há histórias antigas por trás. Se a tristeza for profunda e surgirem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Perguntar antes de acusar

Pense em um conflito recente. Escreva o que aconteceu, só o fato, e depois a interpretação que você fez. Pergunte-se: o que mais poderia explicar isso? Depois, escolha uma pergunta aberta e leve à pessoa: me ajuda a entender o que aconteceu?

Na próxima discussão, tente esperar três respirações antes de responder, e repita com as suas palavras o que ouviu: então você quis dizer que? Isso mostra que você escutou.

Perguntas para refletir

Em que conflito eu agi por suposição? Qual é o fato, e qual é a minha interpretação? Que pergunta aberta eu poderia fazer? Em que momento eu respondo antes de ouvir?

Um passo para hoje

Escreva um conflito recente, separando fato e interpretação. Escolha uma pergunta aberta e faça a uma pessoa de confiança, ou à própria pessoa. Pratique esperar três respirações antes de responder. Depois, leve tudo a Deus.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a pressa de responder, de se defender, de acusar. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine uma pergunta feita com calma, e uma resposta ouvida até o fim. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu muitas vezes reajo antes de entender. Tu conheces as histórias que eu invento e as feridas que me fazem suspeitar. Ensina-me a perguntar antes de acusar.

Dá-me ouvidos que escutem até o fim e humildade para reconhecer quando entendi errado. Protege as minhas relações de mal-entendidos, e protege-me de quem usa a explicação para me machucar. Agradeço-te porque tu me ouves antes de me julgar. Amém.

Continue sua jornada

Leia Josué, capítulo vinte e dois, versículos dez a trinta e quatro, na íntegra. Depois, leia Provérbios, capítulo dezoito, versículos dois a quinze, e Tiago, capítulo um, versículos dezenove e vinte, para ver como a Bíblia fala de escutar antes de falar.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Josué 22, Provérbios 18). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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