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Homem sentado num degrau dentro de casa, de cabeça baixa e braços apoiados nos joelhos; ao lado, uma Bíblia.
Inteligência emocional

Jó 3:1–26

Quando a dor é tanta que a vida pesa

Jó, capítulo três, versículos um a vinte e seis, mostra um homem que perdeu quase tudo, rompe o silêncio e diz, sem enfeites, o quanto está cansado de viver

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Este conteúdo fala de um assunto delicado. Se você está em risco agora, ou pensa em acabar com a própria vida, pare por aqui e procure ajuda: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito. Em risco imediato, ligue para o Samu, cento e noventa e dois, ou para o cento e noventa. Você não precisa enfrentar isso sozinho, e falar com alguém é um passo de coragem.

Há dores que chegam a um ponto em que a vida inteira pesa. Não é só tristeza: é uma sensação de que não há saída, de que o cansaço não tem fim, e de que seria um alívio que tudo parasse. Muita gente tem vergonha de dizer isso, ou pensa que não pode falar, por medo de assustar os outros ou de ser julgada. A Bíblia tem um capítulo inteiro de alguém que disse tudo isso em voz alta.

A Palavra de Deus

Salmos, capítulo treze, versículos um e dois, em paráfrase editorial:

Até quando, Senhor, vais me esquecer? Para sempre? Até quando vou carregar a tristeza no coração, dia após dia?

Salmos 13:1–2 · paráfrase editorial

Quem escreve faz uma pergunta que muita gente faz em silêncio: até quando? A Bíblia guarda essa pergunta, em vez de calá-la.

O lamento de Jó

O relato está no livro de Jó. Jó era um homem de bem, e perdeu quase tudo: os bens, os filhos, a saúde. Depois disso, três amigos chegaram, sentaram-se com ele em silêncio por sete dias e sete noites, e ninguém disse nada, porque viam que a dor era muito grande.

Então, Jó abriu a boca. E o que ele disse não foi uma oração arrumada.

Começou amaldiçoando o dia em que nasceu: pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse que um homem fora concebido. Ele desejou que aquele dia fosse escuridão, que Deus não se lembrasse dele.

Depois, perguntou: por que eu não morri desde o ventre? Por que não expirei ao sair? Por que me receberam nos joelhos, por que tive peitos para mamar? Imaginou que agora estaria deitado em paz, no descanso, ao lado de reis e conselheiros, onde os cansados repousam e onde os maus deixam de perturbar. Ali, disse, o pequeno e o grande são iguais, e o servo está livre do seu senhor.

Perguntou ainda: por que se dá luz ao miserável e vida aos de alma amargurada? Aos que esperam a morte, e ela não vem, e a procuram mais do que a tesouros escondidos, e se alegram quando a encontram? Por que se dá vida a um homem cujo caminho está escondido, e a quem Deus cercou por todos os lados?

Terminou dizendo que o seu suspiro vem antes do seu alimento, e que os seus gemidos correm como água. O que eu temia me aconteceu, disse. E concluiu: não tenho sossego, nem descanso, nem repouso, só perturbação.

Repare em quatro detalhes. Jó disse a verdade, sem suavizar: estou tão cansado que desejaria não ter nascido. Ele falou depois de sete dias de silêncio acompanhado, e foi ouvido. Disse isso a Deus e aos amigos, e ninguém o interrompeu nesse momento. E o texto não corrige o lamento: ele está ali, inteiro, na Bíblia.

Mais tarde, no livro, Jó e os amigos discutem, e Deus fala. Mas este capítulo é o que está diante de nós: o lamento de quem não vê saída. Ele não faz apologia da morte, mostra um homem com o limite da dor. Aplicá-lo a quem hoje sente o mesmo é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

O capítulo ensina algo que parece pequeno e é enorme: é permitido dizer. Dizer que a vida pesa, que se está cansado, que há dias em que se desejaria que tudo acabasse. Quem diz isso não está pecando por falar. Está pedindo, ainda que sem saber, para ser ouvido.

Mas é preciso distinguir. Desejar alívio da dor, estar exausto e ter pensamentos de morte é diferente de ter um plano ou a intenção de acabar com a própria vida. Qualquer um desses pensamentos, porém, merece ser levado a sério, e não deve ficar só com você. Se você tem esses pensamentos com frequência, converse com alguém hoje: um familiar, um amigo, um médico, um psicólogo, o CVV. Pode ser difícil começar. Uma frase basta: tenho pensado em morrer e preciso de ajuda.

Algumas ideias práticas para esse momento. Se você tem pensado em se machucar, afaste-se de objetos ou de situações que facilitem isso e fique perto de alguém. Não fique sozinho se puder evitar. Procure um serviço de saúde, uma Unidade de Pronto Atendimento ou um Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, conforme o que estiver perto. Esses pensamentos costumam ser sintoma de uma condição tratável, como a depressão, e a dor diminui com o cuidado adequado, mesmo quando isso não parece possível agora.

Para quem está perto, a história também fala: os amigos de Jó ficaram em silêncio sete dias. Esse silêncio acompanhado foi o melhor que fizeram. Se alguém diz a você que pensa em morrer, leve a sério. Ouça, sem se assustar nem dar sermão. Pergunte com cuidado se a pessoa pensa em se machucar. Não prometa guardar segredo se houver risco. Ajude a procurar apoio e, se for urgente, não deixe a pessoa sozinha.

O Salmo treze mostra que a Bíblia dá lugar ao até quando. E mostra que o salmista, no fim, ainda diz, em paráfrase editorial: eu confio na tua bondade. Isso não é uma ordem para sentir confiança, é uma possibilidade que vem, às vezes, devagar, com o tempo e o cuidado.

Fé e tratamento andam juntos. Orar não substitui o atendimento, e o atendimento não impede que você ore. E não interrompa por conta própria um tratamento ou um medicamento: converse com o seu médico.

Quando a dor é tanta que a vida pesa

Se hoje é um dia assim, faça o essencial: diga a alguém. Uma frase é suficiente. Fique perto de gente. Coma e beba água, mesmo sem vontade. Evite álcool e outras substâncias, que costumam piorar. Se houver risco, ligue para o cento e oitenta e oito ou procure um serviço de urgência.

Nos próximos dias, marque uma consulta e, se possível, combine com alguém de confiança que acompanhe você nesse período. Escreva o que você pode fazer quando os pensamentos aparecerem: quem chamar, aonde ir, o que ajuda a atravessar a hora.

Perguntas para refletir

A quem eu posso dizer, hoje, como estou de verdade? Que sinais me mostram que preciso de ajuda mais rápido? O que me ajuda a atravessar as horas mais difíceis? Quem eu poderia deixar entrar na minha dor?

Um passo para hoje

Diga a uma pessoa de confiança, com uma frase, como você está. Anote o número do CVV, cento e oitenta e oito, no celular. Marque uma consulta com um médico ou psicólogo. Depois, leve a sua dor a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba o cansaço e deixe a respiração acalmar. Solte o ar devagar. Diga a Deus, com as suas palavras, o quanto está pesado, sem arrumar nada. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu estou cansado, e a vida pesa. Eu não vou esconder isso de ti. Tu sabes o que eu sinto e o que eu penso. Guarda a minha vida.

Dá-me coragem para dizer a alguém o que está dentro de mim. Põe ao meu lado pessoas que me ouçam e profissionais que me cuidem. Segura-me nas horas mais escuras e ensina-me a esperar o amanhecer, um dia de cada vez. Agradeço-te porque tu me ouves até quando eu só consigo gemer. Amém.

Continue sua jornada

Leia Jó, capítulo três, versículos um a vinte e seis, na íntegra, de preferência com alguém ao seu lado. Depois, leia Salmos, capítulo treze, na íntegra, para ver como a Bíblia dá voz a quem pergunta até quando.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Jó 3, Salmos 13). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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