
Ezequiel 37:1–14
Quando a esperança secou
Ezequiel, capítulo trinta e sete, versículos um a catorze, mostra um vale cheio de ossos secos, uma pergunta difícil e um povo que dizia: a nossa esperança acabou
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Narração completa
Há uma tristeza que vai além do choro. É o cansaço de esperar. A pessoa já tentou, já esperou, já rezou, e nada mudou. Aos poucos, a esperança vai secando, e o que sobra é um vazio, uma apatia, uma voz que diz: não adianta. Para quem está assim, ouvir que tudo vai melhorar soa quase ofensivo. Esta cena, uma visão num vale de ossos, foi dita a pessoas que sentiam exatamente isso, e o que ela afirma é diferente de um otimismo apressado.
A Palavra de Deus
Apocalipse, capítulo vinte e um, versículo quatro, em paráfrase editorial:
Deus enxugará dos olhos deles toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.
Apocalipse 21:4 · paráfrase editorial
É uma imagem de esperança para o fim, dirigida a quem sofre. Não diz que a dor é pequena, diz que ela não será a última palavra.
O vale de ossos secos
O relato está no livro do profeta Ezequiel. O povo de Israel estava exilado, longe de sua terra, depois de ver Jerusalém destruída. Havia luto, humilhação e o sentimento de que tudo tinha acabado.
Ezequiel conta que a mão do Senhor veio sobre ele, e o Espírito o levou a um vale cheio de ossos. Ele foi levado a passar ao redor deles: eram muitíssimos, e estavam completamente secos. Não havia vida, não havia nem a lembrança de corpos, só ossos espalhados pelo chão.
Então Deus lhe perguntou: filho do homem, podem estes ossos viver? Pense na pergunta. É uma pergunta que não pede otimismo, pede honestidade. E Ezequiel respondeu: Senhor Deus, tu o sabes. Ele não disse que sim, nem que não. Disse que não sabia, e que Deus sabia.
Deus mandou que ele falasse aos ossos, em nome do Senhor. Ezequiel falou, e ouviu um ruído, um estremecimento: os ossos começaram a se juntar, osso com osso. Depois vieram os tendões, a carne e a pele. Mas ainda não havia fôlego neles.
Deus pediu que ele falasse ao Espírito, ao sopro. Ezequiel falou, e o sopro veio, e os corpos viveram e se puseram em pé, um exército enorme.
Então Deus explicou o que a visão significava: estes ossos são toda a casa de Israel. Eles dizem: os nossos ossos secaram, a nossa esperança acabou, estamos totalmente cortados. É uma frase de quem desistiu. E Deus respondeu: abrirei as suas sepulturas, farei vocês saírem delas, e os trarei de volta à sua terra. Porei em vocês o meu Espírito, e vocês viverão.
Repare em quatro detalhes. O texto reconhece a frase da esperança acabada, e a cita. Ezequiel não foi pressionado a dizer que tudo ficaria bem: disse que não sabia. A restauração veio por etapas: primeiro os ossos se juntam, depois tendões, carne, pele, e por fim o sopro. E o sopro foi a última parte, a que dá vida.
A visão trata do povo de Israel no exílio e da promessa de restauração que Deus lhe fez. Ela não é uma promessa de que cada pessoa que sente a esperança seca será curada, nem um prazo. Aplicá-la à vida de quem perdeu a esperança é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.
Compreendendo o ensinamento
A cena fala a quem está sem esperança, e começa por algo importante: a frase a nossa esperança acabou é dita em voz alta, e não é condenada. Perder a esperança é uma experiência humana, e frequente na depressão. A pessoa deixa de acreditar que as coisas podem mudar, e não porque seja pessimista por escolha: é parte do quadro. Isso não é fraqueza nem falta de fé.
O que o texto sugere é um caminho em etapas. Os ossos não se levantaram de uma vez: primeiro se juntaram, depois vieram tendões, carne, pele. A recuperação costuma ser assim. Primeiro, o básico: dormir, comer, tomar banho, sair de casa. Depois, a retomada de pequenas atividades. Depois, de relações. E, aos poucos, volta a vontade de fazer coisas e, com ela, o sentimento de esperança. Esperar que tudo volte de uma vez costuma frustrar. Valorizar cada etapa ajuda.
A pergunta de Deus também ensina: podem estes ossos viver? Para quem não tem esperança, uma resposta possível é a de Ezequiel: eu não sei, mas tu sabes. Pode-se não ter esperança, e ainda assim permitir que outra pessoa, um profissional, um amigo, a fé, a tenha por um tempo. Muita gente se apoia na esperança de quem está ao lado até que a sua volte. Essa esperança emprestada tem valor.
Na prática, quando a esperança seca, o cuidado é importante. Procure um médico ou psicólogo: apatia, falta de vontade e desesperança são sinais que merecem avaliação, e há tratamentos que ajudam. Na rede pública, a Unidade Básica de Saúde e o Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, podem receber. Não interrompa por conta própria um tratamento ou um medicamento. E, quando a esperança parecer completamente seca, se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito. Em risco imediato, ligue para o Samu, cento e noventa e dois, ou para o cento e noventa.
O Apocalipse fala de um futuro em que toda lágrima será enxugada. É uma esperança grande, e pode parecer distante. Para o dia de hoje, ela pode ser pequena: uma refeição, uma conversa, uma consulta, uma noite de sono. Ambas importam.
Quando a esperança secou
Escolha a etapa em que você está. Se o básico está difícil, cuide dele: dormir em horário regular, comer, tomar banho, abrir a janela. Se o básico está um pouco melhor, escolha uma atividade pequena que dê alguma sensação de utilidade ou prazer, mesmo que fraca. E procure uma pessoa que possa ter esperança por você por um tempo: alguém que diga, sem pressa, que vai acompanhar.
Marque uma consulta, se ainda não tiver. E registre, no fim do dia, uma coisa que foi um pouco melhor do que ontem, ainda que pequena.
Perguntas para refletir
Em que etapa eu estou: o básico, as pequenas atividades, as relações? O que eu poderia fazer hoje, de menor possível? Quem pode ter esperança por mim por um tempo? O que, mesmo pouco, melhorou?
Um passo para hoje
Escolha um gesto básico de cuidado e faça: beber água, tomar banho, caminhar até a porta. Conte a alguém que a esperança tem estado seca. Se ainda não houve avaliação, marque uma consulta. Depois, leve tudo a Deus, em oração.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Perceba o vazio e o cansaço de esperar. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine que alguém lhe pergunta, com cuidado: pode isto viver? E responda com sinceridade, mesmo que seja apenas: eu não sei, mas tu sabes. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, a minha esperança secou e eu estou cansado. Eu já esperei demais, e o vazio é grande. Eu não sei se isto pode viver, mas tu sabes.
Cuida do meu corpo e da minha mente, passo a passo. Põe ao meu lado pessoas que esperem por mim quando eu não consigo. Dá-me coragem para procurar ajuda e paciência com o meu ritmo. Sopra vida onde eu só vejo ossos. Agradeço-te porque tu não te cansas de mim. Amém.
Continue sua jornada
Leia Ezequiel, capítulo trinta e sete, versículos um a catorze, na íntegra. Depois, leia Apocalipse, capítulo vinte e um, versículos um a cinco, e Salmos, capítulo quarenta, versículos um a três, para ver como a Bíblia fala de quem é levantado de um poço.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Ezequiel 37, Apocalipse 21). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.