
Salmos 42:1–11
Quando a alma está abatida
Salmos, capítulo quarenta e dois, versículos um a onze, mostra alguém que chora dia e noite, lembra dias melhores e começa a conversar com a própria alma
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Narração completa
Há dias em que a tristeza vem com motivo claro: uma perda, uma decepção, uma notícia ruim. E há dias em que ela vem sem aviso e fica. O corpo pesa, o sono muda, o que dava prazer perde a graça, e uma pergunta aparece: o que há de errado comigo? Se você tem passado por isso, saiba que o que você sente cabe na Bíblia. Há um salmo inteiro escrito por alguém que chorava dia e noite, e que ensina a primeira coisa que podemos fazer: falar, com sinceridade.
A Palavra de Deus
Salmos, capítulo quarenta e dois, versículo cinco, em paráfrase editorial:
Por que você está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus, pois ainda o louvarei.
Salmos 42:5 · paráfrase editorial
É uma pergunta feita a si mesmo. Quem a faz não finge que está bem, nomeia o abatimento e, ao mesmo tempo, não deixa que ele tenha a última palavra.
O salmista e a sua alma
O texto é um salmo, uma oração em forma de poesia. Quem o escreve parece estar longe de casa, longe do lugar onde costumava se encontrar com Deus. Ele começa com uma imagem: como a corça que anseia pelas correntes de água, assim a minha alma anseia por ti. É sede. Uma sede que não passa.
Ele diz que as suas lágrimas têm sido o seu alimento de dia e de noite. E, ao redor, ouve vozes que perguntam: onde está o seu Deus? A tristeza vem acompanhada de perguntas dos outros, que pesam mais ainda.
Então ele faz algo que muita gente conhece: lembra. Lembra de quando ia com a multidão até a casa de Deus, entre gritos de alegria e de louvor. A lembrança de dias bons, em vez de consolar, acentua a dor. Antes eu era assim, agora olhe para mim.
Aí, no meio do salmo, ele muda de voz. Começa a conversar com a sua própria alma: por que você está abatida? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus, porque ainda vou louvá-lo. Ele não nega o abatimento, fala com ele, como quem fala com alguém que ama e está sofrendo.
Mais adiante, ele confessa que a sua alma está profundamente abatida, e lembra de Deus mesmo desde longe, desde a terra do Jordão e do monte Hermom. Descreve o sofrimento como ondas: um abismo chama outro, e todas as ondas passam por cima de mim. E, ainda assim, afirma que de dia o Senhor enviará a sua bondade, e de noite haverá um cântico, uma oração ao Deus da minha vida.
Em seguida, ele ousa dizer a Deus uma queixa: por que me esqueceste? Por que ando de luto, oprimido? Os que o afrontam repetem a pergunta, onde está o teu Deus?, e o salmo termina com o refrão repetido: por que você está abatida, ó minha alma? Espere em Deus.
Repare em quatro detalhes. O salmista chora e diz que chora. Ele lembra, e a lembrança dói. Fala com a própria alma e a escuta. E o salmo termina como começou: sem resolver tudo. O refrão volta, e o abatimento também.
Este é um texto de oração, não uma história com começo, meio e fim. Ele não promete que a tristeza passe depressa nem trata o abatimento como falta de fé. Aplicá-lo à tristeza e à depressão de hoje é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do salmo.
Compreendendo o ensinamento
O salmo ajuda a separar duas coisas que costumam se misturar: tristeza e depressão. A tristeza é uma resposta natural às perdas e às dificuldades da vida. Costuma ter um motivo, vai e vem, e muda com o tempo e com o apoio. A depressão é uma condição de saúde. Pode aparecer com ou sem motivo, e costuma durar semanas ou mais, com tristeza ou perda de interesse quase todos os dias, mudanças no sono e no apetite, cansaço, dificuldade de concentração, sentimento de inutilidade ou de culpa. Quem pode dizer se é depressão é um médico ou um psicólogo, e isso não é fraqueza nem falta de fé: é cuidado, como se faz com qualquer outra doença.
O salmo nos ensina algumas atitudes. A primeira é dar nome ao que sentimos. O salmista não diz que está bem. Quem se cala costuma sofrer mais, e as palavras já aliviam um pouco. A segunda é conversar com a própria alma com ternura, em vez de se acusar. Muita gente fala consigo em um tom que não usaria com um amigo. A pergunta do salmo é gentil: por que você está abatida?
A terceira é a memória. Lembrar de dias melhores pode doer, como no salmo, mas também pode ser um fio: já houve luz antes, e pode haver de novo. Não precisa ser uma lembrança grandiosa, basta um dia, uma pessoa, uma música. A quarta é a esperança no futuro, dita com humildade: ainda o louvarei. Não é um prazo nem uma promessa de que tudo será como antes, é uma posição: não vou deixar o abatimento definir o fim da história.
Em Salmos, capítulo cento e quarenta e sete, versículo três, lemos, em paráfrase editorial, que Deus cura os que têm o coração quebrantado e enfaixa as suas feridas. E em Salmos, capítulo cento e vinte e seis, versículos cinco e seis, que quem semeia com lágrimas colherá com alegria. São palavras de consolo, e é preciso dizer que não são uma ordem para se sentir melhor, nem um prazo. Fé e tratamento andam juntos: orar e procurar ajuda profissional não se contradizem.
Se a tristeza dura semanas, se você perdeu o interesse pelo que gostava, se o sono, o apetite e a energia mudaram, procure um médico ou psicólogo, na rede particular ou em uma Unidade Básica de Saúde. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito. Em risco imediato, ligue para o cento e noventa e dois, o Samu, ou para o cento e noventa.
Quando a alma está abatida
Comece com a pergunta do salmo, feita com carinho: por que estou assim? Escreva, em poucas linhas, o que você tem sentido, desde quando e o que mudou. Isso ajuda tanto você quanto um profissional, se for procurá-lo.
Depois, escolha um passo pequeno e possível. Abrir a janela, tomar um banho, comer algo, caminhar um pouco na rua, falar com uma pessoa. Não são curas, são apoios. E marque uma conversa com alguém de confiança ou uma consulta, hoje ou nos próximos dias.
Perguntas para refletir
Como eu tenho falado comigo mesmo quando estou triste? O que mudou em mim nas últimas semanas? Quem eu poderia procurar para conversar? Que lembrança boa, pequena, ainda me ajuda?
Um passo para hoje
Escreva em poucas linhas como você está e desde quando. Escolha uma pessoa de confiança e conte a ela. Se a tristeza dura semanas, marque uma consulta. Depois, leve tudo a Deus, em oração.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Perceba o peso que você carrega e deixe a respiração acalmar. Solte o ar devagar. Pergunte à sua alma, com ternura: por que você está abatida? Escute o que vier, sem se acusar. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, a minha alma está abatida e eu não sei bem por quê. Eu choro, eu me canso, e às vezes pergunto onde estás. Hoje eu não vou fingir. Eu te digo como estou.
Ensina-me a falar comigo com ternura. Dá-me coragem para pedir ajuda e para aceitar o cuidado de quem pode me ajudar. Guarda-me nos dias mais escuros e põe ao meu lado pessoas que me escutem. Agradeço-te porque podes ouvir até as minhas perguntas sem resposta. Amém.
Continue sua jornada
Leia Salmos, capítulo quarenta e dois, versículos um a onze, na íntegra. Depois, leia Salmos, capítulo quarenta e três, e Salmos, capítulo cento e quarenta e sete, versículos um a seis, para ver como a Bíblia fala de uma alma abatida que continua a esperar.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Salmos 42, Salmos 147, Salmos 126). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.