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Homem mais velho, emocionado, com uma mochila e um pacote na mão, é recebido de braços abertos numa estação de ônibus.
Comunicação e relacionamentos

Gênesis 33:1–11

Pedir perdão depois de muito tempo

Gênesis, capítulo trinta e três, versículos um a onze, mostra um homem que tem medo de reencontrar o irmão a quem fez mal, e um reencontro que não foi o que ele esperava

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8 min de leitura

Há mágoas que ficam anos guardadas. Uma briga de herança, um comentário que cortou a relação, uma traição, um fim sem conversa, uma falta numa hora difícil. O tempo passa, a vida segue, e ainda assim a pessoa vem à cabeça, de vez em quando, com um aperto: e se eu pedisse desculpa? E se ela nunca me perdoar? E se piorar? O medo do reencontro às vezes pesa mais do que a própria briga. Esta cena mostra um homem que passou por isso, depois de muitos anos, e o que aconteceu quando ele foi.

A Palavra de Deus

Provérbios, capítulo dezoito, versículo dezenove, em paráfrase editorial:

O irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte, e as contendas são como os ferrolhos de um palácio.

Provérbios 18:19 · paráfrase editorial

O sábio descreve com realismo a dificuldade de reconquistar quem foi ferido. Não é uma regra de que não adianta tentar, é um aviso de que o caminho pode ser longo e que a pressa não ajuda.

Jacó e Esaú

O relato está no livro de Gênesis. Jacó e Esaú eram irmãos gêmeos. Muitos anos antes, Jacó tinha enganado o irmão e o pai para ficar com a bênção e o direito de primogênito que pertenciam a Esaú. Esaú, furioso, tinha jurado se vingar, e Jacó tinha fugido para longe.

Anos depois, Jacó estava voltando para a terra de origem, agora com famílias, servos e rebanhos. E sabia que teria de encontrar o irmão. Tinha mandado mensageiros, e soube que Esaú vinha ao seu encontro com quatrocentos homens. O que isso significava? Jacó temia o pior. O capítulo anterior mostra o seu medo, as orações e os presentes que mandou na frente.

Aqui começa o trecho. Jacó levantou os olhos e viu Esaú que vinha, com os quatrocentos homens. Dividiu os filhos entre as duas esposas, Lia e Raquel, e as duas servas. Pôs na frente as servas e seus filhos, depois Lia e os dela, e por último Raquel e José, o mais querido, para que ficassem mais protegidos.

E Jacó fez uma coisa notável. Passou à frente deles e se inclinou até o chão sete vezes, até chegar perto do irmão. Foi o primeiro a se aproximar, e de modo humilde.

Então o texto diz algo que ninguém esperava: Esaú correu ao seu encontro, o abraçou, lançou-se sobre o seu pescoço, o beijou, e os dois choraram.

Esaú olhou e perguntou: quem são estes que estão com você? Jacó respondeu: são os filhos que Deus, por graça, deu ao seu servo. As servas e seus filhos se aproximaram e se curvaram. Depois Lia e os filhos, e depois Raquel e José.

Esaú perguntou ainda: o que você quer com toda esta tropa que eu encontrei? Jacó respondeu: achar graça aos olhos do meu senhor. Esaú disse: eu tenho bastante, meu irmão. Fique com o que é seu.

Mas Jacó insistiu: não, se agora achei graça aos seus olhos, aceite o meu presente. Porque eu vi o seu rosto como quem vê o rosto de Deus, e você me recebeu favoravelmente. Pegue, por favor, a bênção que lhe foi trazida, porque Deus me tem sido bondoso, e eu tenho tudo. E, como ele insistiu, Esaú aceitou.

Repare em quatro detalhes. Jacó foi até o irmão, e foi com humildade. Esaú, que Jacó imaginava furioso, abraçou e chorou: a reação foi muito diferente do medo. O presente não foi para comprar perdão, mas para mostrar reconhecimento, e foi aceito quando Jacó insistiu. E o texto diz que Jacó viu no rosto do irmão algo parecido com o rosto de Deus: a acolhida o surpreendeu.

O relato continua depois, e o trecho de que tratamos termina com a aceitação do presente. A cena trata da reconciliação entre dois irmãos na história dos descendentes de Abraão. Ela não promete que todo reencontro será assim, e não deve ser usada para pressionar alguém a se reconciliar. Aplicá-la ao pedido de perdão depois de muito tempo é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena mostra que o medo pode ser maior do que a realidade, e também que pedir perdão envolve humildade e risco. Algumas ideias práticas.

Primeiro, perguntar-se o que se quer. Pedir perdão é diferente de buscar absolvição ou de exigir que a relação volte ao que era. Você quer reconhecer o que fez, aliviar a outra pessoa, tentar reaproximar? Esclarecer isso evita decepção.

Segundo, preparar-se. Jacó pensou, planejou e rezou, antes de ir. Escreva o que você vai dizer, sem desculpas: eu fiz tal coisa, sei que machucou, sinto muito. Evite o mas, o se você se sentiu ofendido, e a explicação que vira justificativa. Nomear o fato, e assumir, é o centro.

Terceiro, ir com humildade, no tempo e do jeito que o outro puder receber. Uma carta, uma mensagem curta, um telefonema, um encontro em lugar neutro, a presença de um mediador. Respeitar o modo que a outra pessoa escolhe para responder, inclusive o silêncio.

Quarto, aceitar que o outro tem o seu tempo. Esaú acolheu de imediato. Nem sempre é assim. Pode haver raiva, desconfiança, recusa, ou resposta parcial. Provérbios descreve essa dificuldade: o ofendido é mais difícil de conquistar que uma cidade forte. Pedir perdão não obriga ninguém a perdoar. Aceitar a resposta, e não insistir, faz parte.

Quinto, oferecer gestos concretos, quando fizer sentido. Reparar o dano, devolver o que foi tomado, mudar o comportamento, estar presente em situações importantes. Palavras e atitudes juntas.

Sexto, acolher quem pede perdão a você. Esaú abraçou, e disse: eu tenho bastante. Nem toda pessoa consegue, e você não é obrigado a perdoar quem te machucou gravemente, nem a restabelecer a relação. Perdoar é, antes de tudo, um processo seu. A reconciliação depende também da segurança e do arrependimento real do outro.

É preciso uma ressalva importante: a cena não deve ser usada para pressionar vítimas de violência ou abuso a se reconciliar com quem as machucou. Se você foi agredido, humilhado ou controlado por alguém, você não deve nada a essa pessoa em termos de reencontro, e a sua segurança vem em primeiro lugar. O Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência, o Disque cem recebe denúncias de violações de direitos humanos, e o cento e noventa chama a polícia em caso de risco. Se você é quem machucou alguém desse modo, o primeiro passo é buscar ajuda profissional para parar e para repensar o seu comportamento, sem aproximar-se de quem você feriu se isso a colocar em risco.

Se a culpa ou o medo do reencontro pesam muito, conversar com um psicólogo ajuda a se preparar. Se a tristeza for profunda e surgirem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Pedir perdão depois de muito tempo

Pense em uma relação que você gostaria de reparar. Escreva uma mensagem sem enviar: o que aconteceu, o que você sente, o que pede, e como a outra pessoa pode responder, inclusive não respondendo. Releia no dia seguinte e retire o que parecer justificativa.

Se for seguro, envie, ou combine um encontro em lugar tranquilo. Prepare-se para qualquer resposta.

Perguntas para refletir

A quem eu devo um pedido de perdão? O que eu quero com isso? Que parte da minha mensagem é justificativa? Como eu reagirei se a resposta for silêncio ou recusa?

Um passo para hoje

Escreva a mensagem de pedido de perdão e deixe descansar por um dia. Converse com alguém de confiança sobre o plano. Decida se, e quando, enviar. Depois, leve tudo a Deus.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Pense na pessoa a quem você deve uma conversa, e no medo do reencontro. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine uma estrada e alguém que corre ao seu encontro, e também a possibilidade de silêncio. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, há alguém a quem eu devo um pedido de perdão, e tenho medo. Tu conheces o que eu fiz, o que a outra pessoa sente e o que eu desejo. Ensina-me a ir com humildade.

Dá-me palavras sem desculpas, coragem para dar o primeiro passo e paciência com o tempo do outro. Protege quem precisa de distância e cuida de quem foi ferido. Se for possível, abre caminho para a paz. Agradeço-te porque tu nos acolhes mesmo depois de muitos anos. Amém.

Continue sua jornada

Leia Gênesis, capítulo trinta e três, versículos um a onze, na íntegra. Depois, leia Provérbios, capítulo dezoito, versículos dezessete a dezenove, e Mateus, capítulo cinco, versículos vinte e três e vinte e quatro, para ver como a Bíblia fala de reconciliação.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Gênesis 33, Provérbios 18). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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