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Mulher sentada no chão de um corredor à meia-luz, abraçando os joelhos e escondendo parte do rosto no braço.
Inteligência emocional

Gênesis 3:6–13

Quando a vergonha faz a gente se esconder

Gênesis, capítulo três, versículos seis a treze, mostra duas pessoas que se escondem de Deus, uma pergunta que não é acusação e uma resposta cheia de dedos apontados

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Quase todo mundo conhece a vontade de se esconder. Depois de uma decisão errada, de uma palavra dita, de um segredo que pesa, a gente evita o olhar, muda de assunto, some das conversas. Às vezes nem é do outro que se esconde, é de si mesmo. E, quando a explicação finalmente chega, vem a pressa de dividir a culpa: não fui só eu. Existe uma cena muito antiga que mostra exatamente isso, e que mostra também algo que costuma passar despercebido: quem vem à procura do que se escondeu.

A Palavra de Deus

Salmos, capítulo trinta e dois, versículo cinco, em paráfrase editorial:

Eu confessei o meu pecado e não encobri a minha maldade.

Salmos 32:5 · paráfrase editorial

Quem escreve conheceu o peso de calar. Antes desse versículo, o salmista descreve o corpo cansado de guardar o segredo. Depois dele vem o alívio de dizer.

O jardim e o esconderijo

O relato está no livro de Gênesis. Segundo o texto, a mulher olhou para a árvore que Deus tinha pedido que não tocassem. Viu que o fruto parecia bom para comer, bonito de olhar e capaz de dar entendimento. Pegou, comeu e deu também ao marido, que estava com ela, e ele comeu.

Logo em seguida, os olhos dos dois se abriram, e eles perceberam que estavam nus. Costuraram folhas de figueira e fizeram para si cintas. Aquilo que antes era natural passou a causar constrangimento. É a primeira vez, na Bíblia, que aparece a vergonha.

Ao fim do dia, ouviram a voz do Senhor Deus passeando pelo jardim. E o homem e a mulher se esconderam entre as árvores, para não serem vistos.

Então Deus chamou o homem e perguntou: onde você está? Repare: Deus sabia onde ele estava. A pergunta não era sobre lugar. Era um convite para sair do esconderijo.

O homem respondeu: ouvi a sua voz no jardim, tive medo, porque estava nu, e me escondi. Aquela resposta é honesta sobre o sentimento, e ainda não é sobre o que aconteceu.

Deus perguntou de novo: quem lhe disse que você estava nu? Você comeu da árvore que eu lhe pedi que não comesse? E aí veio a reação que todos conhecemos. O homem disse: a mulher que o Senhor me deu, ela me deu da árvore, e eu comi. Passou a conta adiante, e de quebra reclamou de quem estava ao seu lado, e quase de Deus. A mulher, por sua vez, disse: a serpente me enganou, e eu comi.

Repare em quatro detalhes. A vergonha veio antes de qualquer castigo, e foi ela que os fez fugir. Deus saiu à procura: o primeiro movimento da cena é dele. A pergunta onde você está? dá ao outro a chance de falar. E a resposta mostra três tentativas de esconder: a folha, a árvore e a culpa do outro.

O relato trata do início da distância entre as pessoas e Deus, e há muitas leituras sobre o que ele significa. Aplicá-lo à nossa vergonha, ao esconderijo e à pressa de culpar o outro, é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena ajuda a perceber a diferença entre culpa e vergonha. Culpa diz: eu fiz algo errado. Vergonha diz: eu sou errado. A culpa pode pedir reconhecimento e, quando possível, reparação. A vergonha pede esconderijo. E quem se esconde, em geral, não consegue reparar nada, nem receber ajuda.

Hoje, os esconderijos têm outros nomes. O silêncio em casa, o celular virado para baixo, a vida perfeita nas redes enquanto o resto desaba, o trabalho em excesso para não parar e pensar, o vício que anestesia, a mentira pequena que vira grande. Muita gente se compara com a vida editada dos outros e conclui que só ela tem um segredo, quando quase todos têm.

Também ajuda perceber a pressa de culpar. Quando a vergonha aperta, é natural procurar alguém para dividir o peso: a culpa foi do chefe, do cônjuge, da infância, do azar. Às vezes há mesmo outras pessoas envolvidas. Mas a pergunta de Deus não era quem mais errou, era onde você está. O primeiro passo é voltar a si.

E há o que a história mostra sobre Deus: ele não esperou o homem sair sozinho. Veio à procura. Isso não elimina as consequências, o texto continua e elas existem. Mas muda o tom: a vergonha não é a última palavra, e o chamado vem antes do julgamento.

Em Primeira João, capítulo um, versículo nove, lemos, em paráfrase editorial: se reconhecemos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos limpar de toda injustiça. Reconhecer não é se humilhar, é parar de se esconder.

Quando a vergonha vem de algo que foi feito contra você, como abuso, violência ou humilhação, ela não é sua. Essa vergonha pertence a quem agrediu. Se for o seu caso, procure alguém de confiança e um serviço de apoio: o Disque cem recebe denúncias de violações de direitos humanos, e o Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência. E, se a vergonha vem junto com desespero ou pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Quando a vergonha faz a gente se esconder

Comece respondendo, com sinceridade, à pergunta de Deus: onde eu estou? Do que eu estou fugindo? Escreva em uma frase, sem justificar. Depois, separe o que é culpa, algo que você fez e pode reconhecer, do que é vergonha, a ideia de que você é irremediável. A primeira pede um passo concreto. A segunda precisa de acolhimento.

Em seguida, escolha uma pessoa de confiança, um amigo, um familiar, um líder, um psicólogo, e conte o que você tem guardado. Não precisa ser tudo de uma vez. E resista à vontade de começar com a frase “a culpa foi de”. Comece com “eu”.

Perguntas para refletir

De que ou de quem eu estou me escondendo? O que eu venho cobrindo com folhas, ocupação, silêncio ou aparência? Em que ponto eu passo a conta para outra pessoa? Quem poderia me ouvir sem me condenar?

Um passo para hoje

Escreva uma frase que comece com “eu me escondo de” e termine com o que vier. Escolha uma pessoa de confiança e marque uma conversa. Se houver sinais de sofrimento forte, procure um profissional. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba onde, no corpo, está a vontade de se esconder. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine uma voz sem acusação perguntando: onde você está? Responda com as suas palavras, mesmo que seja só “estou com medo”. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu me escondo. Tenho medo de ser visto como sou e de ouvir o que já ouço dentro de mim. Tu sabes onde estou, e ainda assim me chamas. Dá-me coragem para sair do esconderijo.

Ajuda-me a dizer a verdade sem jogar a culpa nos outros, e a distinguir o que preciso reconhecer do que é só vergonha. Põe ao meu lado alguém que escute sem humilhar. Cura o que foi feito contra mim e livra-me do peso do que não é meu. Agradeço-te porque tu vens à minha procura. Amém.

Continue sua jornada

Leia Gênesis, capítulo três, versículos seis a treze, na íntegra. Depois, leia Salmos, capítulo trinta e dois, versículos um a cinco, e Primeira João, capítulo um, versículos oito a dez, para ver como a Bíblia fala de reconhecer o erro e de ser acolhido.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Gênesis 3, Salmos 32, 1 João 1). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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