
Lucas 17:11–19
Quando algo afasta você dos outros
Lucas, capítulo dezessete, versículos onze a dezenove, mostra dez homens que ficam de longe, um grito por misericórdia e um caminho de volta ao convívio
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Narração completa
Há solidões que não vêm de escolha, mas de um rótulo ou de uma condição. Uma doença que assusta os outros, uma diferença que gera estranhamento, um problema de saúde mental de que ninguém quer falar, a velhice que vai reduzindo o círculo, uma deficiência que o ambiente não acolhe, uma história que virou fofoca. Aos poucos, a pessoa deixa de ser convidada, deixa de ser procurada e, às vezes, deixa de se oferecer. Esta cena mostra dez homens que ficaram do lado de fora, e o que acontece quando alguém os vê.
A Palavra de Deus
Salmos, capítulo cento e dois, versículos seis e sete, em paráfrase editorial:
Sou como a ave solitária no deserto, como o pardal sozinho no telhado.
Salmos 102:6–7 · paráfrase editorial
É a oração de quem se sente isolado, no meio de um lamento. A imagem é de uma ave pequena, parada, no alto, longe de todos.
Dez homens à distância
O relato está no evangelho de Lucas. Jesus ia a caminho de Jerusalém e passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa aldeia, vieram ao seu encontro dez homens com lepra. O texto diz que eles pararam de longe.
Esse detalhe importa. Na época, quem tinha lepra, nome que se dava a várias doenças de pele, era mantido à margem, por regra, para evitar o contágio. Não podia viver com a família nem frequentar os espaços comuns. Ficar de longe não era timidez, era uma regra que os afastava de tudo.
De longe, eles levantaram a voz e disseram: Jesus, Mestre, tenha misericórdia de nós. Não pediram nada específico. Pediram misericórdia.
Jesus os viu e disse: vão e mostrem-se aos sacerdotes. Era o que a lei pedia a quem estivesse curado, para ser declarado limpo e voltar a viver em comunidade. E, enquanto iam, ficaram limpos.
Um deles, ao ver que estava curado, voltou, louvando a Deus em voz alta. Lançou-se aos pés de Jesus, com o rosto em terra, e agradeceu. O texto acrescenta um detalhe: era samaritano, alguém que os judeus consideravam estrangeiro.
Jesus perguntou: não foram dez os que ficaram limpos? Onde estão os outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro? E disse a ele: levante-se e vá, a sua fé o salvou.
Repare em quatro detalhes. Eles não esconderam que estavam de longe, e ainda assim gritaram. Jesus os viu e respondeu sem pedir que se aproximassem antes. O caminho de volta ao convívio passou por um passo prático: apresentar-se aos sacerdotes, que podiam declarar a pessoa apta a voltar à comunidade. E um dos dez era duplamente excluído: pela doença e pela origem.
A cena trata da cura de dez homens e da gratidão de um deles. Não é uma comparação com nenhuma doença de hoje, e ninguém deve ler nela que doenças, deficiências ou condições sejam motivo de vergonha. Aplicá-la à solidão causada por rótulos ou por saúde é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.
Compreendendo o ensinamento
A cena abre perguntas importantes. Uma é sobre quem fica de longe. Outra é sobre quem pode fazer o convite para se aproximar.
Para quem é afastado, algumas ideias. Primeiro, o grito. Eles pediram. Ficar em silêncio é compreensível, quando a vergonha pesa, mas dizer a alguém que está sofrendo, pedir ajuda, procurar um grupo de pessoas que passam pela mesma situação, pode mudar muita coisa. Hoje existem grupos de apoio, associações, serviços de saúde, comunidades on-line moderadas e presenciais, onde ninguém precisa explicar tudo.
Segundo, o caminho prático. Voltar ao convívio costuma passar por passos concretos: tratamento, adaptação, informação, apoio. Não é só um sentimento; é também uma rota. Procurar atendimento de saúde, falar com um profissional, buscar orientação sobre direitos de pessoas com deficiência ou doenças crônicas.
Terceiro, o que não é seu. O rótulo que os outros colocam em você não é você. Se alguém evita você por causa de uma doença, por preconceito ou por medo, o problema está no preconceito. A vergonha pertence a quem discrimina.
Para quem convive com alguém afastado, a cena pergunta: quem está de longe perto de mim? Um vizinho idoso, um colega que se retraiu depois de uma doença, um parente com depressão, alguém que parou de aparecer. Uma visita, uma ligação, um convite que respeite os limites da pessoa, um tom simples, sem pena, podem abrir um caminho.
Sobre a gratidão do samaritano: o texto a destaca, mas ela não é cobrança. Não se trata de exigir gratidão de quem é ajudado nem de culpar quem não consegue expressá-la. É um sinal de reconhecimento que brotou nele.
Se a sensação de isolamento está acompanhada de tristeza profunda ou de pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito. Se você é idoso e sofre maus-tratos ou abandono, o Disque cem recebe denúncias.
Quando algo afasta você dos outros
Comece nomeando o que o afasta: uma condição, uma fase, uma fofoca, uma mudança. Pense em um lugar ou grupo onde isso não seja problema: um grupo de apoio, uma associação, uma atividade adaptada, uma comunidade que acolha.
Dê um passo prático: marcar uma consulta, buscar informação, procurar um serviço público de saúde ou assistência. E faça um pedido: peça a uma pessoa de confiança que visite ou ligue com regularidade, combinando um dia e uma hora.
Perguntas para refletir
O que me deixa de longe dos outros hoje? Quem eu poderia procurar para pedir ajuda ou companhia? Que passo prático ainda não dei? Quem perto de mim está de longe, e como eu poderia me aproximar sem pena?
Um passo para hoje
Ligue para alguém ou procure um serviço ou grupo ligado à sua situação. Se você é quem pode se aproximar, visite ou ligue para alguém que está afastado, sem pena e sem pressa. Depois, leve tudo a Deus, em oração.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a distância entre você e os outros, e o que ela custa. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine que a sua voz, mesmo vinda de longe, é ouvida. Diga: tem misericórdia de mim. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, há algo que me mantém de longe, e a solidão pesa. Eu levanto a voz como posso. Tem misericórdia de mim e mostra-me o caminho de volta ao convívio.
Livra-me da vergonha que não é minha. Dá-me coragem para pedir ajuda, para buscar tratamento e para procurar lugares onde eu seja acolhido. Que eu encontre quem se aproxime sem pena. E faz de mim alguém que se aproxima dos que estão de longe. Agradeço-te porque tu vês quem os outros evitam. Amém.
Continue sua jornada
Leia Lucas, capítulo dezessete, versículos onze a dezenove, na íntegra. Depois, leia Salmos, capítulo cento e dois, versículos um a doze, e Salmos, capítulo vinte e dois, versículos vinte e quatro a vinte e seis, para ver como a Bíblia fala de quem se sente isolado e é ouvido.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Lucas 17, Salmos 102). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.