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Homem sentado sozinho à mesa posta para duas pessoas, com a cadeira vazia à frente, olhando para longe.
Inteligência emocional

2 Timóteo 4:9–18

Quando todos se foram

Segunda Timóteo, capítulo quatro, versículos nove a dezoito, mostra um homem preso, quase sozinho, que pede companhia, uma capa e os seus livros, e que não perde a certeza de uma presença

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Há momentos em que as pessoas que estavam por perto vão embora. Um amigo que se afasta quando a vida fica difícil, um sócio que deixa o barco, um familiar que some na doença, uma equipe que se desfaz. O abandono dói duplamente: pela falta da pessoa e pela pergunta que fica, será que foi por minha causa? Nestes momentos, muita gente pensa que tem que ser forte, calar e seguir. Esta carta, escrita por alguém que passou por isso, mostra outro caminho.

A Palavra de Deus

João, capítulo dezesseis, versículo trinta e dois, Jesus diz, em paráfrase editorial:

Vocês vão me deixar sozinho, mas eu não estou só, porque o Pai está comigo.

João 16:32 · paráfrase editorial

Jesus fala isso aos discípulos, na véspera de ser abandonado por eles. Mesmo assim, não deixa de reconhecer que estar só dói, e que há uma companhia que sustenta.

A carta do prisioneiro

O trecho está na segunda carta de Paulo a Timóteo. Paulo estava preso, perto do fim da vida. Escreve a um jovem amigo e colaborador, Timóteo, e o tom da carta é pessoal e honesto.

Ele começa com um pedido: procure vir ter comigo depressa. Em seguida, conta o que aconteceu com os que estavam com ele. Demas, que o acompanhava, o abandonou, por amor a este mundo, e foi para Tessalônica. Crescente seguiu para a Galácia. Tito foi para a Dalmácia. E diz uma frase que dói: só Lucas está comigo.

Veja o que ele faz em seguida. Em vez de se fechar, pede ajuda. Pede que Timóteo traga Marcos, porque ele é muito útil. Fala de Tíquico, que enviou a Éfeso. E faz pedidos bem práticos: traga a capa que deixei em Trôade, na casa de Carpo, e também os livros, principalmente os pergaminhos. Uma capa, para o frio da prisão. Livros, para a mente e o ânimo.

Depois, menciona alguém que lhe fez muito mal, um homem chamado Alexandre, e diz que deixa nas mãos de Deus o que ele merece. Avisa Timóteo para se guardar dele.

E vem o trecho central. Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos me abandonaram. Que isso não lhes seja cobrado. Mas o Senhor esteve ao meu lado e me fortaleceu. Ele diz que foi livrado da boca do leão, e que confia que o Senhor o livrará de toda obra maligna e o levará ao seu reino.

Repare em quatro detalhes. Paulo disse a verdade sobre o abandono: ninguém me assistiu. Não fingiu estar bem. Fez pedidos concretos, de companhia e de coisas simples. Não guardou rancor: pediu que o abandono não fosse cobrado dos que o deixaram. E reconheceu duas coisas ao mesmo tempo: a solidão, e a presença do Senhor.

A carta trata de um apóstolo no fim da vida, de seus colaboradores e de sua confiança. Ela não é um manual para suportar o abandono nem diz que a presença de Deus elimina a dor de ser deixado. Aplicá-la à solidão de quem foi abandonado é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena abre espaço para uma coisa rara: falar do abandono sem disfarce. Paulo não escreveu “estou ótimo, só estou mais reservado”. Escreveu: ninguém me assistiu. Dar nome ao que aconteceu é o primeiro passo.

O segundo é pedir. Ele pediu que viessem, e pediu a capa e os livros. Isso nos lembra de que pedir ajuda prática faz parte. Quem está sozinho em uma doença, em um luto ou em uma crise pode precisar de companhia, mas também de coisas concretas: alguém para levar a algum lugar, para fazer compras, para resolver um papel, para ficar uma noite. Pedir de forma específica é mais fácil de atender do que dizer “se precisar, me chame”. E, se você é quem oferece, pergunte o que a pessoa precisa e faça.

O terceiro é lidar com a mágoa. Paulo mencionou quem o abandonou, mas não deixou que isso o consumisse. Isso não quer dizer que a dor não conte ou que se deva perdoar de imediato. Quer dizer que carregar o rancor intensamente pesa em quem carrega. Às vezes o perdão leva tempo, e às vezes a relação não volta. Pode ser saudável se afastar de quem machuca. Mas vale cuidar para que a dor não vire a única forma de olhar para as pessoas.

O quarto é a presença de Deus. Paulo afirma que o Senhor esteve ao seu lado. Em Salmos, capítulo cento e trinta e nove, versículos sete a dez, o salmista pergunta, em paráfrase editorial: para onde posso ir longe do teu Espírito? Se subir aos céus, tu estás ali. Se me deitar nas profundezas, tu estás ali também. Se tomar as asas da aurora, ali a tua mão me guiará. Essa presença não substitui as pessoas, e não tira a dor de ter sido deixado, mas pode ser um chão para quem sente que não tem nenhum.

Se o abandono veio com ameaças, violência ou controle, procure ajuda de proteção: o Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência e o cento e noventa chama a polícia em caso de risco. Se a dor trouxe tristeza profunda ou pensamentos de desistir da vida, procure um profissional e, se for urgente, o Centro de Valorização da Vida, que atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Quando todos se foram

Comece dando nome ao que aconteceu, em voz baixa ou por escrito: fulano se afastou quando eu mais precisei, e isso me machuca. Sem justificar e sem se acusar. Depois, escreva uma lista de pedidos concretos: companhia, ajuda prática, uma conversa. Escolha duas pessoas que ainda estão por perto, mesmo que poucas, e faça um pedido específico a cada uma.

Cuide também do corpo: sono, alimentação, um pouco de movimento. E considere conversar com um psicólogo, para atravessar o abandono com apoio.

Perguntas para refletir

Quem foi embora e me deixou sozinho? O que eu preciso de concreto, agora? Quem ainda está por perto e eu não procurei? Como eu quero lidar com a mágoa, no meu tempo?

Um passo para hoje

Escreva uma frase que descreva o abandono sem se justificar. Faça um pedido concreto a alguém que está por perto. Reserve alguns minutos de oração honesta, falando como Paulo: ninguém me assistiu, mas tu estás aqui. Depois, leve tudo a Deus.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a falta das pessoas que se foram. Respire fundo e solte o ar devagar. Diga a Deus, com sinceridade, o que dói. Imagine uma presença ao seu lado, sem pressa. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, fui deixado, e dói. Algumas pessoas se foram quando eu mais precisei. Tu sabes o que eu sinto e o que eu preciso. Fica comigo, como ficaste com Paulo.

Dá-me coragem para pedir ajuda concreta e para aceitar quem fica. Cuida da minha mágoa, no meu tempo, e protege-me do rancor que me consome. Fortalece o meu corpo e a minha mente. Agradeço-te porque, mesmo quando todos se vão, tu continuas. Amém.

Continue sua jornada

Leia Segunda Timóteo, capítulo quatro, versículos nove a dezoito, na íntegra. Depois, leia João, capítulo dezesseis, versículos trinta e dois e trinta e três, e Salmos, capítulo cento e trinta e nove, versículos sete a doze, para ver como a Bíblia fala da presença que acompanha.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (2 Timóteo 4, João 16, Salmos 139). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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