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Homem sentado à mesa depois do jantar olha com atenção para uma mulher que recolhe os pratos.
Comunicação e relacionamentos

Lucas 7:36–50

Antes de julgar, olhe a história

Lucas, capítulo sete, versículos trinta e seis a cinquenta, mostra um anfitrião que julga em silêncio uma mulher, e uma conversa em que Jesus lhe pergunta: você vê esta mulher?

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Julgamos quase sem perceber. Pela roupa, pelo jeito de falar, pelo passado que nos contaram, pelo que apareceu uma vez no grupo de mensagens. Em um instante, decidimos quem a pessoa é: preguiçosa, interesseira, falsa, fraca, exagerada. E raramente sabemos o que ela carrega. Nas relações mais próximas isso pesa mais: julgar o cônjuge, o filho, a sogra, o amigo, o colega, a partir de uma versão simples demais. Esta cena mostra um homem que julgou, em silêncio, e a pergunta que lhe foi feita.

A Palavra de Deus

Mateus, capítulo sete, versículos um e dois, Jesus diz, em paráfrase editorial:

Não julguem, para que não sejam julgados. Porque com o julgamento com que julgarem serão julgados, e com a medida com que medirem serão medidos.

Mateus 7:1–2 · paráfrase editorial

É uma frase conhecida e muito mal usada. Ela não proíbe discernir o certo e o errado, é um alerta sobre o jeito de olhar para quem está perto.

Simão e a mulher

O relato está no evangelho de Lucas. Um fariseu chamado Simão convidou Jesus para comer em sua casa. Jesus aceitou, entrou e se sentou à mesa.

Havia na cidade uma mulher conhecida como pecadora. Ela soube que Jesus estava na casa do fariseu e foi até lá, levando um frasco de alabastro com perfume. O texto descreve o que ela fez: ficou atrás de Jesus, junto aos seus pés, chorando. As lágrimas molharam os pés dele, e ela os enxugou com os próprios cabelos, os beijou e os ungiu com o perfume.

Era uma cena forte, íntima e fora do protocolo. Todos os convidados viram.

Simão, o anfitrião, viu também. E disse consigo mesmo: se este homem fosse profeta, saberia quem é a mulher que o está tocando, e que tipo de pessoa ela é: uma pecadora.

Repare: Simão não disse nada em voz alta. Julgou por dentro. Julgou a mulher, e também Jesus. Fez uma conta rápida, com base no que sabia, ou achava saber, sobre ela.

Jesus respondeu ao pensamento dele: Simão, tenho uma coisa a lhe dizer. Simão respondeu: diga, Mestre.

E Jesus contou uma pequena história. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentas moedas, e o outro, cinquenta. Como nenhum dos dois tinha com que pagar, ele perdoou a ambos. Qual dos dois o amará mais? Simão respondeu: acho que aquele a quem perdoou mais. Jesus disse: você julgou bem.

Então Jesus se voltou para a mulher, e perguntou a Simão: você vê esta mulher? Entrei na sua casa, e você não me deu água para os pés. Ela, porém, molhou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os cabelos. Você não me deu um beijo, mas ela, desde que entrei, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela ungiu os meus pés com perfume.

Jesus disse que os muitos pecados dela estavam perdoados, porque ela amou muito, e que aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. E disse à mulher: os seus pecados estão perdoados. Os que estavam à mesa começaram a se perguntar: quem é este que até perdoa pecados? E Jesus disse a ela: a sua fé a salvou; vá em paz.

Repare em quatro detalhes. Simão julgou em silêncio, e Jesus respondeu ao que ele pensava. A pergunta de Jesus não foi uma bronca: foi um convite a olhar: você vê esta mulher? Ele mostrou o que Simão não tinha visto, os gestos concretos dela. E a mulher, no final, foi dispensada com paz e dignidade.

A cena trata de Jesus, do perdão e do amor. Ela não diz que a mulher fosse admirável por causa do seu passado, nem que Simão fosse mau em tudo. O texto a chama de pecadora, linguagem do tempo, e este conteúdo não reforça estigma sobre ninguém. Aplicá-la ao julgamento nas relações de hoje é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A pergunta de Jesus é o centro: você vê esta mulher? Simão via um rótulo. Jesus apontou uma pessoa, com uma história, com gestos, com uma necessidade. Antes de julgar alguém, vale perguntar: o que eu estou vendo, de fato? E o que eu não sei?

Algumas ideias práticas. Primeiro, notar o julgamento quando ele aparece. Muitos julgamentos são automáticos: ela é fresca, ele é mão de vaca, aquela família é problemática. Dizer a si mesmo: isso é um julgamento, e não um fato, já abre espaço.

Segundo, perguntar pela história. O que essa pessoa passou? O que ela carrega? A mulher da cena tinha uma história que Simão não conhecia ou não quis conhecer. Muitas vezes, ao ouvir a história, o julgamento perde força.

Terceiro, olhar o que a pessoa faz de bom, que se perde no rótulo. Jesus apontou os gestos dela: lágrimas, beijos, perfume. No casamento e na família, os rótulos congelam as pessoas: você é assim, sempre foi. Uma relação saudável deixa o outro mudar e crescer.

Quarto, perceber o próprio lugar. Simão estava confortável na posição de anfitrião e de justo. Jesus lembrou: você não fez o mínimo de hospitalidade. Muitas vezes julgamos os outros para evitar olhar para nós mesmos.

É importante distinguir julgar de discernir. Julgar é condenar a pessoa inteira com base em pouco. Discernir é reconhecer o que faz bem e o que faz mal, e proteger-se. Dizer que um comportamento machuca, que uma situação é abusiva ou que alguém praticou um crime não é julgar no sentido da cena: é discernimento, e muitas vezes é necessário. Não use a frase não julgue para silenciar quem denuncia violência ou injustiça, nem para se calar diante de abuso. Se você sofre violência, procure ajuda: o Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência, o Disque cem recebe denúncias de violações de direitos humanos e o cento e noventa chama a polícia em caso de risco.

Quando é você quem é julgado, a cena também ajuda. A mulher não se defendeu: agiu a partir do que sentia, e foi vista por quem importava. Isso não significa que você não deva se defender. Significa que o rótulo dos outros não define quem você é.

Se o julgamento constante, seu ou dos outros, tem machucado as relações, uma conversa com um psicólogo pode ajudar. Se a tristeza for profunda e surgirem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Antes de julgar, olhe a história

Pense em alguém que você julga, no casamento, na família ou no trabalho. Escreva o rótulo que você usa. Depois, escreva três coisas que você não sabe sobre essa pessoa e uma coisa boa que ela faz. Se puder, pergunte a ela, com curiosidade, algo sobre a sua história.

Na próxima vez que o julgamento surgir, diga a si mesmo: o que eu não estou vendo?

Perguntas para refletir

Que rótulo eu uso para alguém que convive comigo? O que eu não sei da história dele? O que ele faz de bom que eu não vejo? O que eu estou evitando olhar em mim?

Um passo para hoje

Escolha uma pessoa e escreva o rótulo, três coisas que você não sabe e uma coisa boa. Faça uma pergunta de curiosidade a ela. Pratique dizer: isso é um julgamento. Depois, leve tudo a Deus.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Pense em alguém que você julga. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine que alguém lhe pergunta: você vê esta pessoa? Deixe vir o que você não via. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu julgo depressa, e muitas vezes sem saber. Tu vês as histórias que eu não conheço. Abre os meus olhos para ver a pessoa, e não o rótulo.

Ensina-me a perguntar e a ouvir, a reconhecer o bem que passa despercebido e a discernir sem condenar. Livra-me do que me faz julgar para não olhar para mim. Protege quem é julgado injustamente. Agradeço-te porque tu me vês por inteiro, e ainda assim me acolhes. Amém.

Continue sua jornada

Leia Lucas, capítulo sete, versículos trinta e seis a cinquenta, na íntegra. Depois, leia Mateus, capítulo sete, versículos um a cinco, e Romanos, capítulo catorze, versículos dez a treze, para ver como a Bíblia fala de olhar sem condenar.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Lucas 7, Mateus 7). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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