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Mulher sentada num banco de corredor, com as mãos unidas e os olhos marejados, enquanto alguém passa ao fundo; ao lado, uma Bíblia.
Inteligência emocional

1 Samuel 1:1–18

Chorar sem ser compreendido

Primeiro Samuel, capítulo um, versículos um a dezoito, mostra uma mulher que chora sem parar, um marido que não entende e um sacerdote que a julga mal, antes de a ouvir

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Quem passa por uma tristeza profunda costuma ouvir frases bem-intencionadas que machucam. Você tem tanta coisa boa. Tem gente em situação pior. Isso passa. É só pensar positivo. Quem diz geralmente quer ajudar, mas a pessoa triste sai da conversa se sentindo ainda mais só, com a impressão de que sua dor é exagero ou que ela está errada em senti-la. Esta cena mostra uma mulher nessa situação, e o que ela fez.

A Palavra de Deus

Mateus, capítulo cinco, versículo quatro, Jesus diz, em paráfrase editorial:

Felizes os que choram, porque serão consolados.

Mateus 5:4 · paráfrase editorial

Não é um elogio ao sofrimento. É uma afirmação de que o choro não é um erro: quem chora tem direito ao consolo.

Ana no santuário

O relato está no primeiro livro de Samuel. Elcana tinha duas mulheres: Penina, que tinha filhos, e Ana, que não tinha. Todos os anos, a família subia a Siló para adorar. Elcana repartia as porções do sacrifício e dava a Ana uma parte especial, porque a amava, mas a tristeza dela não passava.

O texto diz que Penina, a outra mulher, a provocava com frequência, para irritá-la, por ela não ter filhos. Ana chorava e não comia. A dor se mostrava no corpo.

Elcana percebeu e perguntou: Ana, por que você chora? Por que não come? Por que está triste de coração? Eu não valho mais para você do que dez filhos? A pergunta tem carinho, mas mostra o limite do que ele entendia. Ele ofereceu o seu amor como resposta a uma dor que pedia mais do que isso.

Depois da refeição, Ana se levantou e foi ao santuário. O sacerdote Eli estava sentado perto de um pilar. E ela, com a alma amargurada, orou ao Senhor e chorou abundantemente. Fez um voto: se Deus lhe desse um filho, ela o consagraria ao Senhor.

Enquanto ela orava, Eli observava a sua boca. Ana falava em seu coração, só os lábios se moviam, e a voz não se ouvia. Eli pensou que ela estivesse embriagada e disse: até quando você ficará bêbada? Livre-se do vinho.

Ana respondeu com firmeza e respeito: não, meu senhor. Sou uma mulher atribulada de espírito. Não bebi vinho nem bebida forte. Derramei a minha alma diante do Senhor. Não considere a sua serva uma mulher perversa, porque a minha tristeza e a minha dor são grandes, e por isso falei tanto até agora.

Eli então mudou de tom: vá em paz, e que o Deus de Israel lhe conceda o que você pediu. Ana respondeu: que a sua serva ache graça aos seus olhos. Foi, comeu, e o seu rosto já não era mais triste.

Repare em quatro detalhes. A dor de Ana não foi entendida pelo marido nem pelo sacerdote, a princípio. Ela não se calou nem se defendeu com raiva: explicou, com dignidade, o que se passava. Derramou a alma diante de Deus, sem filtro. E, quando foi ouvida, mesmo tardiamente, algo mudou: ela comeu e o rosto se aliviou.

A história trata de Ana, de sua oração e do nascimento de Samuel. Ela não diz que a tristeza passa quando se faz um voto nem que Deus atende a todo pedido assim. Aplicar a cena à tristeza de quem chora sem ser compreendido é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena toca em algo que muitas pessoas vivem: a dor mal compreendida. Penina, Elcana e Eli representam três formas de falhar com quem sofre: provocar, minimizar e julgar de longe. Hoje, elas aparecem como a comparação (outros estão pior), a lógica que tenta consertar (você tem tudo, por que está assim?), o julgamento (isso é frescura, é falta de fé, é preguiça) e a pressa de animar (levanta a cabeça, vai passar).

Se você está nessa situação, algumas ideias. Primeiro, a sua dor é real, mesmo quando os outros não a entendem. Segundo, tente dizer o que ajuda: eu não preciso de conselhos agora, preciso que você me escute. Muitas pessoas não sabem o que fazer e agradecem uma orientação. Terceiro, procure quem escute de verdade: um amigo, um parente, um grupo de apoio, um psicólogo. Nem todos serão capazes, e isso não diz nada sobre o seu valor. Quarto, como Ana, derrame a alma diante de Deus. Orar não precisa ser bonito, pode ser só choro e uma frase.

Ana foi mal interpretada e se explicou. Isso lembra que, às vezes, vale esclarecer com calma o que se passa, sem entrar em disputa. E há casos em que a incompreensão vem de quem deveria cuidar, e a pessoa precisa de outro lugar para ser ouvida.

Também há uma observação sobre o corpo. Ana não comia, e o rosto mudou depois de comer e de ser ouvida. Na tristeza profunda, o apetite e o sono costumam mudar. Cuidar do básico, comer algo, descansar, ficar perto de alguém, ajuda a atravessar o dia, mas isso não é uma cura. Se a tristeza dura semanas e vem com perda de interesse, cansaço, mudanças no sono e no apetite, procure um médico ou psicólogo, na rede particular ou em uma Unidade Básica de Saúde. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

E, quando for a sua vez de consolar alguém, lembre-se de Elcana e de Eli: perguntar e escutar antes de supor ou de aconselhar.

Chorar sem ser compreendido

Escolha uma pessoa com quem você sente que pode falar um pouco e diga: eu não preciso que você resolva, só que me escute por dez minutos. Se a pessoa não conseguir, tente outra. Procure um profissional para ter um espaço em que a sua dor seja levada a sério.

Escreva ou diga a Deus o que você gostaria que alguém entendesse. Pode ser uma carta que ninguém vai ler. Depois, se achar útil, escolha uma parte para dizer a alguém.

Perguntas para refletir

Que frases já me machucaram quando eu estava triste? O que eu gostaria que alguém me dissesse ou fizesse? Quem poderia me escutar sem tentar me consertar? Como eu tenho tratado quem está triste perto de mim?

Um passo para hoje

Escolha uma pessoa e diga o que você precisa dela: escuta, companhia, tempo. Escreva, para você, uma frase que começa com “o que eu queria que entendessem é”. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba as palavras que você queria dizer e não disse. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine que alguém ouve com atenção, sem interromper, enquanto você derrama o que está dentro. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu choro, e muita gente não entende. Tu conheces a minha tristeza por dentro, e não precisas que eu a explique bem. Eu derramo a minha alma diante de ti.

Livra-me das palavras que ferem e põe no meu caminho quem me escute. Dá-me coragem para dizer o que preciso e paciência com quem não sabe como me ajudar. Cuida do meu corpo, do meu sono e do meu coração. Agradeço-te porque tu consolas quem chora. Amém.

Continue sua jornada

Leia Primeiro Samuel, capítulo um, versículos um a dezoito, na íntegra. Depois, leia Mateus, capítulo cinco, versículos um a doze, e Salmos, capítulo trinta, versículos um a cinco, para ver como a Bíblia fala de quem chora e é consolado.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (1 Samuel 1, Mateus 5). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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