
Lucas 1:39–45
Alegrar-se com o bem do outro
Lucas, capítulo um, versículos trinta e nove a quarenta e cinco, mostra uma mulher mais velha que recebe a visita de uma parenta mais jovem e a abençoa em vez de se comparar
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Narração completa
Parabenizar de verdade é mais difícil do que parece. É fácil dizer parabéns com a boca e sentir um aperto no peito. Mais difícil ainda quando o bem do outro toca algo que a gente queria para si: o filho que não veio, o emprego que não saiu, o amor que não apareceu, o reconhecimento que demorou. Algumas pessoas se afastam das amigas na gravidez, das colegas na promoção, dos irmãos no casamento, porque doer de ver é doer demais. Esta cena mostra o contrário, e mostra como pode ser.
A Palavra de Deus
Provérbios, capítulo catorze, versículo trinta, em paráfrase editorial:
O coração tranquilo é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos.
Provérbios 14:30 · paráfrase editorial
O sábio liga a inveja ao corpo: ela desgasta por dentro. E o coração em paz, que consegue se alegrar, faz bem a quem o tem.
Duas mulheres e uma saudação
O relato está no evangelho de Lucas. Maria, uma jovem, tinha recebido um anúncio extraordinário: ia ter um filho, de um jeito inesperado. E, logo depois, levantou-se e foi depressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel, sua parenta.
Isabel era uma mulher mais velha. O próprio evangelho conta, no início do capítulo, que ela e o marido não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois já tinham idade avançada. Ela também estava grávida, depois de muitos anos de espera, e havia ficado escondida durante cinco meses. Tinha o seu próprio assunto, a sua própria história, a sua própria alegria que acabava de chegar, depois de uma dor longa.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o texto diz que a criança se moveu no seu ventre, e que ela foi cheia do Espírito Santo. E então exclamou em alta voz: bendita é você entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre. E de onde me vem esta honra, de que a mãe do meu Senhor venha visitar-me? Assim que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. E feliz é aquela que creu, porque o que o Senhor lhe disse será cumprido.
Pense na cena. Duas mulheres, uma mais velha e outra mais jovem, ambas com gestações incomuns. A mais velha poderia ter olhado para a mais jovem e pensado: por que ela, e por que só agora eu? Poderia ter se comparado. Mas a reação dela foi de reconhecer, abençoar, e se alegrar.
Repare em quatro detalhes. Isabel não ficou em silêncio constrangido: celebrou em voz alta. Colocou Maria no lugar de honra: de onde me vem esta honra? A alegria era dela também: a criança saltou de alegria. E ela terminou nomeando o que viu de bom: feliz é aquela que creu.
A cena trata do encontro de duas mães e do reconhecimento do papel de Maria e do filho que ela esperava. Ela não diz que alegrar-se com o outro é fácil, nem que quem sente dor ao ver a alegria alheia está errado. Aplicá-la à inveja e à comparação é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.
Compreendendo o ensinamento
A cena mostra uma possibilidade: alegrar-se com o bem do outro. Mas é preciso dizer, com respeito, que nem sempre isso é simples nem imediato. Quem vive uma dor, como a infertilidade, a perda de uma gravidez, um luto, um desemprego longo, um fim de relacionamento, pode sentir uma dor real ao ver a alegria alheia. Isso não é falta de caráter. Às vezes é preciso um tempo de distância, de cuidado, de apoio. Não se deve forçar uma alegria que ainda não vem.
O que a cena sugere é um caminho, e não uma obrigação. Alguns passos podem ajudar. O primeiro é reconhecer o que se sente, sem se condenar: estou feliz por ela e, ao mesmo tempo, isso me dói. As duas coisas podem coexistir. O segundo é fazer um gesto pequeno e sincero, dentro do que for possível: uma mensagem curta, um parabéns honesto, uma visita breve. Não precisa de entusiasmo exagerado.
O terceiro é perceber que a alegria do outro não tira nada de nós. A comparação nos faz pensar que o bem é uma quantidade fixa, e que, se alguém tem, falta para mim. Isso nem sempre é verdade. A alegria do outro pode, muitas vezes, aumentar a nossa. Isabel não perdeu nada com a visita de Maria: a criança dela saltou de alegria.
O quarto é cuidar de quem tem dificuldade em se alegrar e do que isso revela. Se a alegria de alguém dói muito, pode ser um sinal de que existe uma ferida que merece atenção: conversar com alguém de confiança, buscar apoio psicológico, grupos de apoio, e permitir-se chorar. Não se trata de disfarçar. Quando a ferida é cuidada, a alegria do outro costuma incomodar menos.
O quinto é aprender a parabenizar também no meio da própria falta. Isso é uma habilidade que se treina. E, para quem está do outro lado, aquele que recebe uma boa notícia, também há um cuidado: dar a notícia com delicadeza a quem sofre uma dor ligada a ela, sem esperar que o outro reaja como se esperaria.
Em Gálatas, capítulo cinco, versículo vinte e seis, Paulo escreve, em paráfrase editorial: não sejamos vaidosos, provocando e invejando uns aos outros. É um convite a uma convivência sem esse jogo de comparações.
Se a inveja ou a dor diante da alegria alheia vem junto com tristeza profunda, perda de interesse ou cansaço, procure um psicólogo ou médico. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.
Alegrar-se com o bem do outro
Pense em alguém cuja conquista recente lhe causou um aperto. Escreva, sem enviar a ninguém: estou feliz por ela porque. E depois: me dói porque. Aceite as duas frases. Se for possível, faça um gesto sincero e curto: uma mensagem de parabéns.
Se a dor for grande demais, guarde distância sem culpa, e conte a alguém de confiança. E, quando a alegria alheia for mais leve, pratique: celebre uma conquista pequena de alguém hoje.
Perguntas para refletir
Com quem eu tenho dificuldade de me alegrar? O que essa alegria alheia toca em mim? O que eu posso fazer de sincero e possível? Quem pode me apoiar com a dor por trás disso?
Um passo para hoje
Escreva as duas frases: estou feliz porque e me dói porque. Envie uma mensagem curta e sincera a alguém que conquistou algo, se isso estiver ao seu alcance. Conte a alguém de confiança o que dói. Depois, leve tudo a Deus, em oração.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a alegria alheia que dói e o que ela toca. Respire fundo e solte o ar devagar. Diga a Deus as duas frases, sem esconder nenhuma. Imagine duas pessoas que se abraçam sem comparação. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, eu queria me alegrar com o bem dos outros, e às vezes só consigo sentir dor. Tu conheces a ferida que isso toca em mim. Não quero me condenar nem fingir.
Cura o que dói por dentro e dá-me tempo e cuidado. Ensina-me a parabenizar com sinceridade, no meu ritmo. Livra-me da inveja que consome. E quando for a minha vez de ter uma boa notícia, ajuda-me a dá-la com delicadeza a quem sofre. Agradeço-te porque a alegria alheia não diminui o que tu tens para mim. Amém.
Continue sua jornada
Leia Lucas, capítulo um, versículos trinta e nove a quarenta e cinco, na íntegra. Depois, leia Lucas, capítulo um, versículos cinco a vinte e cinco, e Provérbios, capítulo quatorze, versículos vinte e sete a trinta, para ver como a Bíblia fala de uma alegria que não se compara.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Lucas 1, Provérbios 14, Gálatas 5). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.