
Rute 2:5–16
Gentileza que dá segurança
Rute, capítulo dois, versículos cinco a dezesseis, mostra uma estrangeira pobre num campo de colheita e um homem que a vê, a protege e fala ao seu coração
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Narração completa
Há pessoas ao lado de quem a gente se sente seguro. Não por causa de grandes gestos, mas de pequenas coisas: como cumprimentam, como escutam, como falam, o que fazem para que o outro esteja bem sem fazer alarde. E há quem faça o contrário: use o poder, a voz alta, a ironia, a indiferença. Em qualquer relação, no casamento, no namoro, na amizade, no trabalho, a gentileza é o que torna possível a confiança. Esta cena mostra um homem que fez isso com uma mulher que estava em uma situação frágil, e o que mudou.
A Palavra de Deus
Provérbios, capítulo dezesseis, versículo vinte e quatro, em paráfrase editorial:
As palavras agradáveis são favo de mel: doces para a alma e saúde para o corpo.
Provérbios 16:24 · paráfrase editorial
O sábio fala de palavras que adoçam. Em uma relação, o jeito de dizer faz tanta diferença quanto o que se diz.
Boaz e Rute
O relato está no livro de Rute. Rute era uma mulher estrangeira, de Moabe, que tinha acompanhado a sogra Noemi até Belém depois de ficar viúva. As duas estavam pobres e precisavam comer. Era época da colheita da cevada, e Rute foi ao campo para recolher as espigas que ficavam para trás dos segadores, o que a lei de Israel permitia aos pobres e estrangeiros.
O campo pertencia a Boaz, um homem de posses e parente do marido falecido de Noemi. Quando ele chegou ao campo, cumprimentou os trabalhadores com palavras de bênção, e eles responderam do mesmo jeito. Já começa por aí: um dono de terras que cumprimenta quem trabalha para ele.
Então Boaz viu uma jovem que não conhecia e perguntou ao encarregado: de quem é esta moça? O servo respondeu: é a moça moabita, que voltou com Noemi. Pediu para recolher as espigas atrás dos segadores, e desde cedo está aqui, descansando só um pouco.
Boaz se dirigiu a ela: você me ouve, minha filha? Não vá colher em outro campo, nem se afaste daqui. Fique junto das minhas servas. E disse aos rapazes que não a importunassem, e que, quando ela tivesse sede, bebesse da água que eles tinham tirado.
Rute se curvou até o chão e disse: por que achei graça aos seus olhos, para que você faça caso de mim, sendo eu estrangeira? Era uma pergunta de quem não esperava ser tratada com cuidado.
Boaz respondeu que sabia de tudo o que ela tinha feito pela sogra depois da morte do marido, como deixou pai, mãe e terra para viver entre um povo desconhecido. E lhe desejou que Deus a recompensasse.
Rute disse: que eu ache graça aos seus olhos, meu senhor, pois você me consolou e falou ao coração da sua serva, embora eu não seja como uma das suas servas.
Na hora da refeição, Boaz a chamou: venha aqui, coma do pão e molhe o seu pedaço no vinagre. Ela se sentou junto aos segadores, e ele lhe ofereceu grãos tostados. Ela comeu até se fartar, e ainda sobrou. Depois, ele ordenou aos rapazes que deixassem cair espigas de propósito para ela, e que não a repreendessem.
Repare em quatro detalhes. Boaz notou, perguntou e se informou antes de agir. Falou diretamente com ela, e a tratou como pessoa. A proteção que deu foi concreta: água, companhia, comida, instruções para que ninguém a incomodasse. E o texto diz, pela boca de Rute, que ele falou ao coração dela: ele a consolou com palavras.
A cena trata de Rute, de Boaz e da provisão para Noemi, no contexto de uma família que se reconstrói. Ela não é um modelo de romance nem diz que uma mulher deve esperar proteção de um homem com poder. Aplicá-la ao cuidado e ao respeito nas relações é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.
Compreendendo o ensinamento
A cena mostra como o poder pode ser usado com respeito. Boaz tinha tudo: terra, trabalhadores, posição. Rute tinha pouco e estava em desvantagem. Ele poderia ter ignorado, explorado ou se aproveitado. Fez o contrário: viu, perguntou, protegeu e ofereceu. Nas relações de hoje, a gentileza é ainda mais importante quando há diferença de poder.
Algumas ideias práticas para quem quer construir relações assim. Primeiro, notar o outro: o cansaço, o humor, o que precisa. Boaz notou a moça nova, e perguntou quem era. Muitos desgastes de casal começam quando um deixa de notar o outro. Segundo, falar com o outro, e não sobre o outro. Boaz se dirigiu a Rute diretamente. Terceiro, cuidar das palavras: o tom, a ironia, o que se diz na frente dos outros. Uma palavra suave consola, e uma palavra dura, mesmo dita sem querer, fere. Quarto, oferecer cuidado concreto, sem esperar agradecimento, e sem cobrar depois. Um copo de água, uma companhia, uma ajuda com a tarefa, uma mensagem. Quinto, proteger sem controlar: Boaz garantiu que ninguém a incomodasse, mas não decidiu a vida dela. Proteger é diferente de impedir, vigiar ou decidir pelo outro.
Também é preciso reconhecer o lado oposto. Quando alguém usa a posição, a força, o dinheiro ou o conhecimento para humilhar, controlar ou se aproveitar, isso não é cuidado. Se você sofre isso, em um relacionamento, em casa ou no trabalho, procure ajuda. O Ligue cento e oitenta atende mulheres em situação de violência, o Disque cem recebe denúncias de violações de direitos humanos e o cento e noventa chama a polícia em caso de risco. Assédio no trabalho pode ser denunciado, e existem canais oficiais, a conferir.
Se você é quem tem mais poder na relação, mais renda, mais autoridade, mais voz, a cena pergunta: como eu uso isso? Em Provérbios, as palavras agradáveis fazem bem ao corpo. Pergunte-se se as suas palavras fazem bem a quem está perto de você.
Se você sente que nunca teve esse tipo de cuidado, ou que não sabe oferecê-lo, isso pode ser aprendido. A terapia, individual ou de casal, e conversas honestas com pessoas de confiança ajudam. Se a tristeza for profunda e surgirem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.
Gentileza que dá segurança
Escolha uma pessoa próxima e faça, hoje, três gestos pequenos: cumprimente com atenção, pergunte como ela está e escute a resposta, e ofereça uma ajuda concreta. Observe como ela reage, e como você se sente.
Depois, reveja o seu tom nas últimas conversas: houve ironia, pressa, voz alta? Se sim, peça desculpas e tente de novo, com calma.
Perguntas para refletir
Com quem eu me sinto seguro, e o que essa pessoa faz? Que gestos pequenos eu posso oferecer? Como eu uso a minha voz e o meu poder nas relações? Em que momento eu deixei de notar o outro?
Um passo para hoje
Escolha uma pessoa e faça três gestos pequenos: cumprimentar com atenção, perguntar e escutar, e oferecer uma ajuda. Releia as últimas conversas e peça desculpas, se for o caso. Depois, leve tudo a Deus.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Pense em alguém ao lado de quem você se sente seguro, e em quem se sente seguro ao seu lado. Respire fundo e solte o ar devagar. Perceba o tom da sua voz interior. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, eu quero ser alguém que dá segurança. Tu sabes onde eu sou duro, apressado e distraído. Ensina-me a notar quem está perto e a falar com respeito.
Dá-me palavras que adoçam, e não que ferem, e mãos que ajudem sem cobrar. Protege quem sofre com abuso e dá coragem para pedir ajuda. Cura em mim o que me torna áspero. Agradeço-te porque tu falas ao coração de quem sofre. Amém.
Continue sua jornada
Leia Rute, capítulo dois, versículos cinco a dezesseis, na íntegra. Depois, leia Provérbios, capítulo dezesseis, versículos vinte e um a vinte e quatro, e Segunda Coríntios, capítulo um, versículos três e quatro, para ver como a Bíblia fala de palavras que consolam.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Rute 2, Provérbios 16). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.