
Mateus 18:23–35
Quando a dívida é de quem a gente ama
Mateus, capítulo dezoito, versículos vinte e três a trinta e cinco, mostra uma dívida enorme perdoada, uma dívida pequena cobrada com dureza e uma pergunta sobre compaixão
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Narração completa
Emprestar dinheiro a quem a gente ama é uma das situações mais delicadas que existem. O irmão que pediu para “só até o mês que vem”, o amigo que prometeu devolver e nunca mais tocou no assunto, o filho que precisou de ajuda de novo. De um lado, a vontade de ajudar. Do outro, a mágoa de ver o combinado esquecido e o medo de cobrar e estragar a relação. E quem está do outro lado, devendo, muitas vezes foge por vergonha. Entre os dois, o silêncio pesa mais do que o dinheiro.
A Palavra de Deus
Salmos, capítulo trinta e sete, versículo vinte e um, em paráfrase editorial:
O ímpio toma emprestado e não paga, mas o justo tem compaixão e dá.
Salmos 37:21 · paráfrase editorial
O salmista contrasta dois jeitos de lidar com o dinheiro dos outros: o de quem se esquiva e o de quem é generoso. O texto é uma observação sobre o caráter. Ele não serve para julgar quem, por um aperto real, não conseguiu pagar.
O servo que não perdoou
O relato está no evangelho de Mateus. Pedro tinha perguntado a Jesus quantas vezes devia perdoar um irmão. Jesus respondeu com uma parábola, uma história inventada para ensinar.
Um rei quis acertar as contas com os seus servos. Quando começou, trouxeram-lhe um que devia dez mil talentos, uma quantia gigantesca, impossível de pagar numa vida inteira. Como ele não tinha com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, junto com a mulher, os filhos e tudo o que tinha.
O servo se jogou aos pés do rei e pediu: tenha paciência comigo, e eu pagarei tudo. O rei, movido de compaixão, fez mais do que esperar. Soltou o servo e perdoou toda a dívida.
Mas esse mesmo servo, ao sair, encontrou um companheiro que lhe devia cem denários, uma quantia pequena em comparação. Agarrou-o pelo pescoço e disse: pague o que me deve. O companheiro caiu a seus pés e pediu quase as mesmas palavras: tenha paciência comigo, e eu pagarei. Mas ele não quis. Mandou prendê-lo até que pagasse.
Os outros servos viram, ficaram muito tristes e foram contar tudo ao rei. O rei chamou o primeiro e disse: servo mau, eu perdoei tudo aquilo porque você me pediu. Não devia você também ter compaixão do seu companheiro, como eu tive de você? Irado, entregou-o aos que o castigariam, até que pagasse tudo o que devia.
Jesus termina dizendo que assim também o Pai celestial fará com quem não perdoar, de coração, ao irmão.
Repare em quatro detalhes. A dívida do servo era imensa, e a do companheiro, pequena. O rei perdoou diante do pedido humilde. O servo pediu a mesma paciência que não deu. E quem percebeu o que estava errado foram os outros servos, que se entristeceram e levaram o caso adiante, em vez de ficar calados.
A parábola trata do perdão que recebemos de Deus e de como isso nos obriga a perdoar quem nos ofende. Ela não é uma regra para perdoar dívidas de dinheiro nem para deixar de cobrar o que é devido. Aplicar a história às dívidas entre pessoas que se amam é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.
Compreendendo o ensinamento
A parábola nos ajuda a olhar para quem nos deve e para quem nós devemos, com um olhar de compaixão. O servo que cobrou com violência tinha esquecido o quanto lhe tinha sido perdoado. A primeira lição é lembrar de que também precisamos de paciência, em algum lugar da vida.
Mas há outras lições práticas, e é importante dizê-las com cuidado. Perdoar não quer dizer apagar tudo e deixar de proteger a si mesmo. O texto fala de coração, de compaixão, de não tratar o outro com dureza. Ele não diz que você precisa emprestar de novo a quem não pagou, nem que deve se prejudicar para manter a paz. Cobrar com dignidade é possível: lembrar o combinado com calma, propor um novo prazo, sugerir parcelas pequenas, escrever o que foi acertado. Humilhar, ameaçar ou expor a pessoa diante de outros não é cobrar, é ferir.
Também há o que fazer antes de emprestar. Pergunte-se: eu posso perder esse valor sem me prejudicar? Se não, talvez a ajuda tenha que ser menor, ou de outro tipo. Muita gente se orienta por uma regra simples: só emprestar o que pode dar. Combinar por escrito, mesmo com quem se ama, evita mal-entendidos. Não é falta de confiança; é cuidado com a relação.
E há o lado de quem deve. A vergonha faz fugir. Mas procurar a pessoa antes de ela procurar você, dizer o valor, propor o que consegue pagar e cumprir, conserva o vínculo. Se o assunto é grave, uma conversa com um terceiro de confiança pode ajudar.
Em Lucas, capítulo seis, versículo trinta e cinco, Jesus diz, em paráfrase editorial, que se deve fazer o bem e emprestar sem esperar nada em troca, porque o Deus Altíssimo é bondoso até com os ingratos. É um ideal de generosidade. Não é uma ordem para que você empreste o que não pode perder, nem uma exigência de silêncio diante de abuso. É um convite a uma generosidade livre e sábia.
Se a dívida está causando brigas graves, se há ameaças, ou se você percebe que o dinheiro virou uma forma de controle ou de abuso na família, procure ajuda: em caso de risco, o telefone cento e noventa chama a polícia. E, se o desânimo é profundo, o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.
Quando a dívida é de quem a gente ama
Se você é o credor, comece com uma conversa em particular, no momento certo, sem plateia. Diga o que sente com franqueza e sem acusação: eu preciso conversar sobre aquele valor. Ouça. Proponha uma data ou parcelas que caibam e anote o que foi combinado. Decida o que fará se não for cumprido, e decida com calma, e não na raiva.
Se você é o devedor, não espere ser cobrado. Procure a pessoa, reconheça a dívida, diga o que consegue pagar e cumpra. Se não conseguir, avise antes do prazo, com respeito.
Perguntas para refletir
Quem me deve, e como eu me sinto em relação a isso? A quem eu devo e venho evitando? Eu cobro com dignidade, ou fujo, ou exploro? O que eu posso perdoar sem me prejudicar, e o que preciso proteger?
Um passo para hoje
Escolha uma dívida entre pessoas que você ama, a que você deve ou a que lhe devem. Escreva o que você quer dizer, com calma. Marque uma conversa em particular e proponha um combinado simples. Depois, leve tudo a Deus, em oração.
Momento de oração
Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a mágoa de quem não foi pago, ou a vergonha de quem não conseguiu pagar. Respire fundo e solte o ar devagar. Lembre do quanto já foi perdoado e do quanto já foi esperado por você. Fique alguns instantes em silêncio.
Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:
Senhor, o dinheiro entrou entre mim e alguém que eu amo, e eu não sei como falar. Tu conheces a mágoa, o medo e a vergonha. Lembra-me de quanta paciência tu tens comigo.
Dá-me palavras honestas e um coração que não humilhe. Mostra-me o que posso perdoar e o que preciso combinar com clareza. Protege o que eu preciso proteger e cura a relação. Agradeço-te porque tu és paciente comigo. Amém.
Continue sua jornada
Leia Mateus, capítulo dezoito, versículos vinte e um a trinta e cinco, na íntegra. Depois, leia Salmos, capítulo trinta e sete, versículos vinte e um a vinte e seis, e Lucas, capítulo seis, versículos trinta e um a trinta e seis, para ver como a Bíblia fala de generosidade e de compaixão.
Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Mateus 18, Salmos 37, Lucas 6). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.