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Mulher de mochila nas costas, parada no portão de casa ao entardecer, olha para trás; numa mesinha ao lado, uma Bíblia aberta.
Produtividade e excelência

Lucas 9:57–62

Primeiro deixa-me

Lucas, capítulo nove, versículos cinquenta e sete a sessenta e dois, mostra três pessoas que querem seguir Jesus, mas pedem para resolver algo primeiro

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Quase todo adiamento começa com a palavra primeiro. Primeiro eu resolvo isto, depois eu começo. Primeiro eu me organizo, depois eu me cuido. Primeiro passam as festas, depois eu mudo. Primeiro eu preciso ter aquela conversa na cabeça, depois eu falo. O problema não é o primeiro em si. É que o primeiro nunca termina, e o depois vai ficando cada vez mais longe.

A Palavra de Deus

Lucas, capítulo nove, versículo cinquenta e nove, em paráfrase editorial:

Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar o meu pai.

Lucas 9:59 · paráfrase editorial

Quem diz essa frase é o segundo dos três do relato. E a resposta de Jesus mostra como ela soa quando é dita no meio de um chamado.

Os três e o chamado

O relato está no evangelho de Lucas. Jesus ia a caminho de Jerusalém quando três pessoas se aproximaram, cada uma com a sua disposição de segui-lo.

O primeiro disse: eu o seguirei para onde quer que você vá. Jesus respondeu com uma imagem simples: as raposas têm covas, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Não era uma recusa. Era uma informação honesta sobre o que o caminho custava.

A um segundo, Jesus disse: siga-me. E o homem respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar o meu pai. Jesus lhe disse: deixa que os mortos enterrem os seus mortos, mas você vá e anuncie o Reino de Deus.

Um terceiro disse: eu o seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro me despedir dos que estão em minha casa. E Jesus respondeu: ninguém que põe a mão no arado e olha para trás está apto para o Reino de Deus.

Imagine a cena. Três pessoas diferentes, cada uma com um motivo sério. Um enterro, uma despedida, uma estrada incerta. Nenhum desses motivos é frívolo. E, mesmo assim, o texto mostra que o chamado pedia uma resposta que não cabia num primeiro eu resolvo.

O texto não diz o que cada um fez depois. Termina com as palavras de Jesus.

Repare em três detalhes. Os motivos eram legítimos: luto, família, medo do caminho. A palavra primeiro, porém, empurrava o chamado para uma data que nunca chegaria. E a imagem do arado fala de olhar para a frente, e não de se esquecer das pessoas.

A passagem trata do chamado de Jesus e do custo de segui-lo. As palavras são duras, e não devem ser lidas como desprezo pelo luto ou pelas despedidas. Relacioná-la ao hábito de adiar decisões é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena ajuda a perceber uma armadilha comum: o adiamento que se apresenta como responsabilidade. Quem adia raramente diz não. Diz: primeiro isto.

Hoje, o primeiro assume muitas formas. Primeiro eu me organizo, depois eu começo a estudar. Começo a dieta na segunda. Falo com ele depois das festas. Marco a consulta quando as coisas acalmarem. Peço perdão quando estiver menos tenso. Há decisões importantes, como mudar de profissão, terminar um relacionamento ruim, começar um tratamento, ter uma conversa difícil, que ficam anos esperando o momento ideal. A vida se enche de ciclos de recomeço que nunca chegam a ser o começo.

É importante distinguir. Algumas coisas realmente vêm primeiro: cuidar de um doente, viver um luto, resolver uma emergência. Isso não é adiamento. O adiamento começa quando o primeiro se alonga sem prazo e sem passo concreto, quando serve para evitar o desconforto de decidir.

Em Provérbios, capítulo vinte e sete, versículo um, o sábio diz, em paráfrase editorial, que não devemos presumir do dia de amanhã, porque não sabemos o que ele trará. O amanhã é uma promessa que nem sempre cumprimos.

E em Salmos, capítulo noventa, versículo doze, o salmista pede, em paráfrase editorial, que Deus nos ensine a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio. Contar os dias não é viver com pressa. É viver com consciência.

Esses textos não pedem que ninguém abandone quem precisa de cuidado, nem que se decida no desespero. Mostram que o tempo é limitado e que decidir também é uma forma de cuidar da vida.

Se você sente que não consegue decidir nada, que o medo trava até o primeiro passo, ou que a ansiedade toma conta, procure um psicólogo. Dificuldade de decidir pode ser tratada.

Quando o primeiro nunca termina

Comece listando o que você vem adiando por causa de um primeiro. Escreva-o em duas colunas: o que realmente vem antes e o que é adiamento. Seja honesto: o luto, o cuidado e a emergência ficam na primeira coluna. O resto fica na segunda.

Depois, para cada item da segunda coluna, troque o primeiro por uma data. Em vez de depois eu faço, escreva: no sábado, às dez, eu faço isto. Reduza o item ao menor passo possível e conte a alguém. Se o medo for de errar, lembre-se de que decidir não exige certeza total, e de que muitas decisões podem ser ajustadas depois. E, quando a vontade de olhar para trás vier, lembre-se do arado: é possível olhar para a frente sem esquecer as pessoas que amamos.

Perguntas para refletir

Qual é o meu primeiro mais frequente? O que realmente vem antes e o que é adiamento? Que decisão eu venho empurrando há mais tempo? Que data e que passo pequeno eu posso marcar?

Um passo para hoje

Escolha uma decisão que você vem adiando. Troque o depois por uma data e escreva o menor passo para essa data. Conte a alguém de confiança e peça que cobre você. Leve a decisão a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Pense no primeiro que você tanto repete e perceba o que ele esconde: medo, cansaço, luto, vontade de agradar. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine a sua mão sobre o arado, com o olhar voltado para a frente, sem esquecer ninguém. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu vivo dizendo primeiro e deixando o depois sem data. Tu conheces os meus motivos, o que é cuidado de verdade e o que é medo de decidir. Hoje eu quero falar a verdade contigo.

Mostra-me o que vem antes e o que é adiamento. Dá-me coragem para trocar o depois por uma data e para dar o menor passo possível. Ensina-me a contar os meus dias e a viver com um coração sábio. Cuida de quem eu amo enquanto eu caminho. Agradeço-te porque tu nos chamas com paciência. Amém.

Continue sua jornada

Leia Lucas, capítulo nove, versículos cinquenta e sete a sessenta e dois, na íntegra. Depois, leia Provérbios, capítulo vinte e sete, versículos um a dez, e Salmos, capítulo noventa, versículos doze a dezessete, para ver como a Bíblia fala do tempo e da sabedoria.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Lucas 9, Provérbios 27, Salmos 90). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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