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Mulher recém-mudada, à porta do apartamento cheio de caixas, segura um vaso de planta e sorri para uma vizinha que lhe oferece um prato.
Inteligência emocional

Atos 9:26–31

Chegar onde ninguém conhece você

Atos dos Apóstolos, capítulo nove, versículos vinte e seis a trinta e um, mostra um recém-chegado que ninguém quer receber e um homem que decide acolhê-lo

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Chegar a um lugar novo costuma ser mais difícil do que parece. A cidade desconhecida, o primeiro dia no emprego, a faculdade longe de casa, a vida de recomeço depois de uma separação ou de uma mudança. A agenda está cheia de tarefas práticas, e a solidão aparece nas pequenas coisas: almoçar sozinho, não ter para quem contar uma novidade, não saber a quem pedir ajuda. E há ainda um medo escondido: e se ninguém quiser me conhecer? Esta cena mostra alguém nessa posição, e mostra o que faz a diferença.

A Palavra de Deus

Salmos, capítulo sessenta e oito, versículo seis, em paráfrase editorial:

Deus faz o solitário morar em família.

Salmos 68:6 · paráfrase editorial

É uma frase curta e ousada. Ela não diz que a solidão é fácil, diz que o cuidado de Deus costuma se expressar por meio de gente, de casas e de mesas.

Saulo em Jerusalém

O relato está no livro de Atos. Saulo, que depois seria conhecido como Paulo, tinha sido um perseguidor dos seguidores de Jesus. Depois de um encontro que mudou a sua vida, passou a anunciar o que antes combatia. Quando chegou a Jerusalém, procurou se juntar aos discípulos.

Mas todos tinham medo dele. Não acreditavam que ele fosse mesmo um discípulo. E isso é compreensível: a lembrança do que ele tinha feito ainda era recente. Imagine a cena: ele chega, cheio de convicção, e encontra portas fechadas e olhares desconfiados. Era um homem sem lugar, entre um passado que os outros não esqueciam e um presente que ninguém queria acreditar.

Então apareceu Barnabé. O texto diz que ele tomou Saulo consigo e o levou aos apóstolos. Contou-lhes como Saulo, no caminho, tinha visto o Senhor, e como em Damasco tinha falado com coragem no nome de Jesus. Barnabé não ofereceu um discurso sobre confiança. Ofereceu a sua palavra e a sua companhia.

A partir daí, Saulo passou a ficar com eles em Jerusalém, entrando e saindo. Falava com ousadia no nome do Senhor e discutia com alguns grupos, que passaram a querer matá-lo. Quando os irmãos souberam, levaram-no a Cesareia e o enviaram a Tarso, sua cidade, para protegê-lo.

O texto termina com uma observação sobre a comunidade: as igrejas, em toda a região, tinham paz, eram edificadas e cresciam.

Repare em quatro detalhes. A desconfiança dos outros era compreensível, mas deixava Saulo sem lugar. Barnabé se aproximou antes de a situação mudar, e arriscou a sua reputação. O acolhimento teve gestos concretos: levar, apresentar, contar, acompanhar. E, quando houve perigo, os irmãos o protegeram e o mandaram para um lugar seguro.

A cena trata da inclusão de Saulo na comunidade cristã de Jerusalém. Aplicá-la à solidão de quem chega a um lugar novo, e ao papel de quem acolhe, é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A cena tem duas pontas. Uma é a de quem chega. A outra é a de quem pode acolher. Cada uma pode se perguntar: o que me cabe?

Para quem chega, algumas ideias. Em primeiro lugar, tenha paciência: fazer vínculo leva tempo, e a vida adulta tem menos ocasiões naturais de amizade do que a escola ou a faculdade. Em segundo lugar, escolha lugares onde as pessoas se repetem: uma academia, um grupo de estudo, um clube, uma comunidade, um grupo de voluntários, uma aula, um time. Vínculos nascem da repetição. Em terceiro, dê o primeiro passo em pequenas doses: um bom-dia, uma pergunta, um convite para um café depois de algumas conversas. Em quarto, aceite que nem toda tentativa dá certo, e que isso não diz nada sobre o seu valor.

Há também um cuidado importante. A carência abre espaço para relações que se aproveitam: golpes afetivos pela internet, pessoas que oferecem muito rápido e pedem dinheiro, grupos que isolam e controlam. Desconfie de intimidade rápida demais, de pedidos de dinheiro ou de segredos, e converse com alguém de confiança antes de decisões importantes. Isso não é falta de confiança no mundo, é cuidado com quem está sozinho.

Para quem já está estabelecido, a cena pergunta: quem está chegando perto de mim? Um colega novo, um vizinho recém-mudado, um aluno, alguém novo na comunidade. Ser Barnabé pode ser simples: apresentar a essa pessoa o seu círculo, convidar para almoçar, explicar como as coisas funcionam, dizer o seu nome. E é bom lembrar que acolher não é abrir mão de prudência, mas é olhar além da primeira impressão.

Hoje também existem muitas pessoas que se sentem sozinhas apesar de estarem cercadas: quem trabalha em home office, quem cuida de um familiar doente, quem se mudou de país, quem se separou. A pergunta serve a todas elas.

Se a sensação de isolamento está acompanhada de tristeza profunda, perda de interesse por tudo ou dificuldade de sair de casa, procure um psicólogo ou médico. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Chegar onde ninguém conhece você

Se você chegou há pouco, escolha uma atividade que se repita toda semana e vá por quatro semanas, antes de decidir se gosta. Aprenda o nome de duas pessoas. Faça uma pergunta e ouça a resposta. Convide alguém para algo pequeno e de pouco compromisso.

Se você já está estabelecido, pense em quem chegou há pouco ao seu redor. Convide essa pessoa para um café ou para uma refeição, apresente-a a alguém e pergunte o que ela precisa para se sentir em casa.

Perguntas para refletir

Onde eu me sinto mais deslocado hoje? Que lugar ou grupo eu poderia frequentar com regularidade? Quem chegou há pouco perto de mim e ainda não foi recebido? Que cuidado eu preciso ter para me proteger de relações que se aproveitam?

Um passo para hoje

Escolha uma atividade semanal e se inscreva ou compareça pela primeira vez. Ou convide alguém novo no seu meio para um café. Anote o nome de duas pessoas que você quer conhecer melhor. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba como é estar entre pessoas que ainda não sabem quem você é. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine alguém que se aproxima, apresenta você, dá o seu nome e diz que você pode ficar. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu estou num lugar onde quase ninguém me conhece, e isso pesa. Tu conheces o meu nome e a minha história. Dá-me paciência para construir vínculos e coragem para dar o primeiro passo.

Protege-me das relações que se aproveitam da minha carência. Põe no meu caminho um Barnabé, alguém que me abra a porta, e faz de mim alguém que abre a porta para outros. Faz o solitário morar em família, como tu prometeste. Agradeço-te porque nenhum lugar é longe demais da tua presença. Amém.

Continue sua jornada

Leia Atos dos Apóstolos, capítulo nove, versículos vinte e seis a trinta e um, na íntegra. Depois, leia Salmos, capítulo sessenta e oito, versículos quatro a seis, e Romanos, capítulo doze, versículos nove a treze, para ver como a Bíblia fala de acolher e de pertencer.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Atos 9, Salmos 68). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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