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Mulher deitada no sofá à noite, com o rosto iluminado pela tela do celular e o olhar cansado.
Inteligência emocional

Salmos 73:1–17

Quando parece que os outros se dão melhor

Salmos, capítulo setenta e três, versículos um a dezessete, mostra alguém que quase tropeçou ao olhar a vida dos outros e só se acalmou quando mudou de lugar para olhar

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Basta abrir o celular. A viagem de alguém, a casa nova, o casamento perfeito, o corpo em forma, o trabalho dos sonhos, a festa dos filhos, o bom humor eterno. E, do outro lado da tela, a sua vida de segunda-feira, com contas, cansaço e a louça na pia. A comparação é automática: eles estão bem, e eu, não. Não é uma ideia moderna. Um salmo antigo descreve exatamente essa sensação, e mostra o que aconteceu com quem a sentiu.

A Palavra de Deus

Primeira Timóteo, capítulo seis, versículos seis a oito, em paráfrase editorial:

A piedade com contentamento é grande ganho. Nada trouxemos para este mundo, e nada podemos levar dele. Tendo o que comer e o que vestir, estejamos contentes com isso.

1 Timóteo 6:6–8 · paráfrase editorial

Paulo fala de um contentamento que não se confunde com resignação: é uma maneira de olhar o que se tem, sem medir pelo que o outro tem.

O orante que quase escorregou

O texto é um salmo, uma oração em forma de poesia, atribuído tradicionalmente a Asafe. Quem o escreve começa com uma afirmação: Deus é bom para os de coração limpo. É a lição que ele sabe de cor. E logo depois, vem a confissão: quanto a mim, os meus pés quase se desviaram, e os meus passos por pouco não escorregaram.

Por quê? Ele responde com franqueza: tive inveja dos arrogantes, ao ver a prosperidade dos ímpios.

Ele descreve o que viu. Pessoas que pareciam livres de aflições, de corpo forte, sem as dores que os outros enfrentam, sem as dificuldades da vida comum. Orgulhosas, vestidas de soberba como um colar, de olhos cheios de gordura, dizendo o que queriam, falando com ironia e de cima, como se estivessem acima do céu e da terra. E, ao redor, muita gente se voltando para elas e admirando.

E vem a conclusão amarga, dita em voz alta: na verdade, foi em vão que eu mantive o meu coração limpo e lavei as mãos na inocência. Pois sou castigado todo o dia, e a minha repreensão vem toda manhã.

É um desabafo muito humano. Eu me esforço, faço o que é certo, e quem parece não ligar para nada vive melhor do que eu.

Mas, no meio do salmo, ele faz algo importante. Diz que, se tivesse falado tudo isso em público, teria traído a geração dos filhos de Deus. Ele guardou para si a dúvida, ao invés de espalhar. E diz: quando pensava em entender isso, era penoso demais aos meus olhos, até que entrei no santuário de Deus. Então entendi o fim deles.

A mudança não foi uma resposta nova a uma pergunta. Foi uma mudança de lugar, e de perspectiva. No santuário, ele pôde olhar de um ângulo mais amplo, e a imagem que o enganava perdeu força.

Repare em quatro detalhes. O orante admite a inveja, com todas as letras. Ele descreve o que viu, e o que viu era impressionante. Ele não espalhou o desabafo: levou até Deus. E o alívio veio ao entrar em um lugar onde pôde olhar de outro jeito.

O salmo continua depois, e aqui nos limitamos aos versículos um a dezessete. Ele fala de um tema específico, a prosperidade dos que agem com orgulho e violência, e não da vida de qualquer pessoa que pareça feliz. Não é uma promessa de que quem se dá bem será punido. Aplicá-lo à comparação com a vida dos outros, nas redes e fora delas, é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do salmo.

Compreendendo o ensinamento

O salmo ajuda a nomear algo que acontece muito hoje: comparar o bastidor da própria vida com a vitrine da vida do outro. Quem posta, em geral, escolhe os melhores momentos, com filtros, boas luzes e boas versões. Nós sabemos disso, e mesmo assim nos comparamos. Lembrar que é uma seleção ajuda, mas não elimina o efeito. Por isso vale agir.

Algumas ideias práticas. Primeiro, falar do que dói, com alguém de confiança, em vez de ficar rolando a tela em silêncio. O orante levou o sentimento até Deus, e não o espalhou nem o escondeu. Segundo, olhar de outro lugar: afastar-se um pouco do cenário que provoca a comparação. Silenciar contas que despertam angústia, limitar o tempo, reservar horários sem tela, buscar espaços onde as pessoas se mostrem mais inteiras. Terceiro, observar o que a comparação ensina: quase sempre ela mostra o que desejamos de verdade, uma viagem, um descanso, um reconhecimento, um corpo mais saudável. Pergunte qual passo possível existe. Quarto, lembrar que não conhecemos a vida inteira do outro. Quem parece bem pode estar lidando com dívidas, doenças ou solidão.

Também é preciso reconhecer que há diferenças reais de condições: dinheiro, saúde, oportunidades, apoio. Comparar-se, às vezes, é perceber algo verdadeiro. O que ajuda é separar a injustiça concreta, que pode pedir ação, do mal-estar que vem da vitrine, que pede outro olhar. E o contentamento do texto de Paulo não é acomodação: é uma liberdade em relação ao que os outros têm, que permite continuar buscando melhorar sem a ansiedade de ser igual.

Em Salmos, capítulo trinta e sete, versículo um, lemos, em paráfrase editorial: não se irrite por causa dos malfeitores, nem tenha inveja dos que praticam a injustiça. É um conselho curto, que o salmista de lá oferece a quem sente o mesmo desconforto.

Se a comparação constante, a sensação de ser sempre menos e a ansiedade com as redes estão tirando a sua paz, converse com um psicólogo. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Quando parece que os outros se dão melhor

Faça um experimento de uma semana: silencie as contas que mais despertam comparação e anote como você se sente. Escolha um horário do dia sem tela. Em vez de ficar ruminando, escreva o que o incomodou e o que isso revela que você deseja.

Depois, escolha um passo concreto: marcar um passeio, conversar com um amigo, procurar um curso, cuidar da saúde. E converse com alguém sobre o que sente.

Perguntas para refletir

Que contas ou conversas despertam mais comparação em mim? O que elas mostram que eu quero? O que eu não sei da vida dessas pessoas? Que mudança de lugar me ajudaria a ver de outro jeito?

Um passo para hoje

Silencie, por uma semana, duas contas que despertam comparação. Escreva o que você deseja e um passo possível. Converse com um amigo sobre o que sente. Reserve uma hora sem tela. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba as imagens que ficaram na sua cabeça e o aperto que elas causam. Respire fundo e solte o ar devagar. Diga com sinceridade: eu invejei. Imagine-se entrando em um lugar de silêncio, de onde se vê tudo de mais longe. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu olhei a vida dos outros e quase escorreguei. Senti inveja e cansaço de me esforçar. Tu conheces o que eu vi e o que eu não vi. Não quero guardar isso comigo.

Leva-me a um lugar de onde eu possa olhar com mais amplitude. Ensina-me o contentamento que não é acomodação, e mostra o que eu realmente desejo e posso fazer. Livra-me da vitrine que me engana. Agradeço-te porque a minha vida é vista por ti por inteiro. Amém.

Continue sua jornada

Leia Salmos, capítulo setenta e três, versículos um a dezessete, na íntegra. Depois, leia Primeira Timóteo, capítulo seis, versículos seis a dez, e Salmos, capítulo trinta e sete, versículos um a sete, para ver como a Bíblia fala de contentamento e da inveja dos que prosperam.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Salmos 73, Salmos 37, 1 Timóteo 6 (ACF)). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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