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Mulher sentada no chão entre caixas e sacolas de compras, com o rosto apoiado na mão e o celular na outra.
Inteligência emocional

Eclesiastes 2:1–11

Tudo o que os olhos pediram

Eclesiastes, capítulo dois, versículos um a onze, mostra alguém que se permitiu tudo o que quis e depois fez a conta do que sobrou

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Existe um tipo de desejo que não se acaba quando é atendido. A compra que dava alegria por dois dias e logo pede a próxima. A rolagem de tela que promete só mais um vídeo. A comida que não alivia, o jogo que promete virar a mesa, a conversa que a gente abre só para conferir. Comprar, assistir, comer, apostar, ver: cada uma dessas coisas pode ser inocente, e todas podem virar um buraco sem fundo. Há um texto bíblico em primeira pessoa de alguém que fez uma experiência radical com isso, e contou o resultado com franqueza.

A Palavra de Deus

Provérbios, capítulo vinte e sete, versículo vinte, em paráfrase editorial:

Assim como a sepultura e a perdição nunca se fartam, os olhos do homem também nunca se saciam.

Provérbios 27:20 · paráfrase editorial

O sábio observa algo que qualquer um reconhece: o olhar sempre quer mais. Nunca há uma imagem, um objeto ou uma experiência que feche a conta.

O Pregador e a experiência

O texto está no livro de Eclesiastes. Quem fala é o Pregador, uma voz que se apresenta como alguém com muitos recursos, e que decidiu fazer uma pesquisa pessoal. Ele diz, no início: vamos lá, eu vou provar o prazer, e ver o que há de bom nisso.

Veja a lógica: não é um impulso, é um experimento deliberado. Ele quer descobrir se o prazer é o que parece. E, antes de concluir, já adianta a resposta: também isso era vaidade, no sentido de algo que passa, como fumaça. Do riso, disse: é loucura. Da alegria, perguntou: de que serve?

Então decidiu animar o corpo com o vinho, mas sem perder a cabeça: queria ver até onde ia sem se perder. E passou a lista do que fez. Fez grandes obras. Construiu casas, plantou vinhas, fez jardins e pomares, abriu tanques de água para regá-los. Comprou servos e servas, teve rebanhos e gados, juntou prata e ouro, e os tesouros de reis e de províncias. Teve cantores e cantoras, e todas as delícias que as pessoas costumam buscar.

Ele ficou maior do que todos os que viveram antes dele em Jerusalém. E diz uma frase que vale ler devagar: tudo o que os meus olhos desejaram, eu não lhes neguei. Não privei o meu coração de nenhuma alegria. E reconhece que o coração se alegrava com o que fazia, e que esse foi o seu quinhão pelo trabalho.

Mas depois vem a conta. Ele olhou para tudo o que as suas mãos tinham feito e para o esforço de fazê-lo, e viu: tudo era vaidade e correr atrás do vento. Não havia proveito algum debaixo do sol.

Repare em quatro detalhes. O Pregador não passou por privação: teve tudo, e não lhe faltou alegria no momento. Ele não condena o prazer em si, descreve o que o prazer entregou: algo que não sustenta. A palavra repetida é vaidade, a imagem do vapor, da fumaça. E ele conta a experiência com honestidade, sem fazer sermão.

O texto é um depoimento de sabedoria, e não um relato com começo, meio e fim. Ele fala de alguém com muitos recursos e de uma busca específica, e não de toda forma de prazer. Aplicá-lo ao consumo sem fim, às compras, às telas e a outras buscas de hoje é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do texto.

Compreendendo o ensinamento

O Pregador mostra algo que a ciência do comportamento hoje descreve de outro jeito: o prazer imediato dá um alívio curto e deixa pedindo mais. O cérebro aprende a repetir o que dá recompensa rápida, e a busca pode ir se tornando automática, mesmo quando o prazer diminui. Quando isso acontece, a pessoa continua buscando, e já não sente tanto o prazer: sente o vazio entre uma busca e outra.

Isso aparece de muitos jeitos hoje. Compras por impulso ou compulsivas, ofertas e entregas a um clique. Rolagem infinita de redes e vídeos, que não têm fim por desenho. Jogos de azar e apostas online, que prometem retorno e, para muitos, geram dívidas e angústia. Comer sem fome para aliviar emoções. Pornografia e outras formas de estímulo rápido. Álcool e outras substâncias. Trabalho sem pausa. Cada uma dessas formas tem os seus riscos, e vale falar delas sem exagero e sem vergonha.

Algumas ideias práticas. Primeiro, notar o padrão: o que eu busco, quando e como me sinto depois? Se o depois é vazio, culpa ou arrependimento, é um sinal. Segundo, criar uma pausa: antes de comprar, esperar um dia; antes de abrir o aplicativo, respirar; antes de apostar, conversar com alguém. A pausa dá tempo ao impulso de diminuir. Terceiro, mexer no ambiente: remover aplicativos de compra e de apostas, desativar notificações, limitar o tempo de tela, tirar cartões salvos, bloquear sites. Fica mais difícil agir por impulso quando há atrito. Quarto, procurar a necessidade por trás: tédio, solidão, ansiedade, cansaço, falta de reconhecimento. Quando a necessidade é atendida de outro jeito, o impulso perde força.

Quinto, observar os prejuízos: dinheiro, sono, relacionamentos, trabalho, saúde. Se os prejuízos já são grandes e a pessoa não consegue parar, mesmo querendo, pode ser um comportamento compulsivo ou uma dependência, que é uma condição de saúde. Procure um psicólogo ou médico, um Centro de Atenção Psicossocial, um grupo de ajuda mútua, como os de jogadores anônimos, ou orientação para dívidas. Isso não é fraqueza nem falta de fé.

O contentamento não é a ausência de desejo. O Pregador mostra que ter tudo não bastou. O que pode ajudar é uma relação diferente com o desejo: escolher, em vez de ser levado. Isso cresce com prática, com apoio e, muitas vezes, com tratamento.

Se a angústia vem com tristeza profunda, desespero com dívidas, vergonha intensa ou pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Tudo o que os olhos pediram

Escolha um comportamento que você suspeita ser um padrão. Durante uma semana, anote, sem se julgar, quando acontece, o que você sentia antes e como se sentiu depois. No fim, olhe os registros e veja o que se repete.

Escolha uma barreira simples: desativar uma notificação, remover um aplicativo, adiar uma compra por vinte e quatro horas, combinar com alguém uma conversa antes de apostar. E procure ajuda, se o prejuízo já é grande.

Perguntas para refletir

O que eu busco que nunca me sacia? Como me sinto depois? Que necessidade pode estar por trás? Que barreira eu posso colocar entre o impulso e a ação?

Um passo para hoje

Escolha um comportamento e anote quando ele acontece, o que você sente antes e depois. Coloque uma barreira simples: desativar uma notificação, remover um aplicativo ou adiar uma compra por um dia. Conte a alguém de confiança. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba o que os seus olhos e a sua mão procuram quando você está cansado ou vazio. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine o vazio que vem depois, e pergunte, com ternura: o que eu realmente preciso? Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, os meus olhos pedem sempre mais, e eu corro atrás, e depois me sinto vazio. Tu sabes o que eu procuro de verdade e o que eu estou tentando preencher. Não quero me esconder.

Ajuda-me a notar o padrão e a colocar uma pausa entre o impulso e o gesto. Dá-me coragem para pedir ajuda se eu já não consigo parar sozinho. Ensina-me um contentamento que não seja resignação, e uma alegria que fique. Agradeço-te porque tu me conheces por inteiro. Amém.

Continue sua jornada

Leia Eclesiastes, capítulo dois, versículos um a onze, na íntegra. Depois, leia Eclesiastes, capítulo cinco, versículos dez a doze, e Isaías, capítulo cinquenta e cinco, versículos um a três, para ver como a Bíblia fala do que sacia e do que não sacia.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Eclesiastes 2, Provérbios 27). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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