Pular para o conteúdo
Mulher segura um papel e olha, desconfiada, para um colega que também segura um envelope.
Inteligência emocional

Mateus 20:1–16

Quando o outro recebe o que você achava que era seu

Mateus, capítulo vinte, versículos um a dezesseis, mostra um dono de vinha, trabalhadores contratados em horas diferentes e uma queixa que começa quando chega a hora de pagar

Ouça este ensinamento

Narração completa

0:00--:--

7 min de leitura

Poucas coisas incomodam tanto quanto a sensação de que alguém recebeu mais do que merecia, ou o mesmo que você, fazendo menos. O colega que chegou depois e ganha igual. O irmão que ficou com a parte da família que parecia sua. A pessoa que foi reconhecida por um trabalho que você tinha feito a maior parte. Dá raiva, dá mágoa, e dá um desconforto estranho de ficar chateado com alguém que talvez nem tenha feito nada de errado. Uma parábola de Jesus fala justamente desse sentimento.

A Palavra de Deus

Gálatas, capítulo seis, versículo quatro, em paráfrase editorial:

Examine cada um a sua própria obra, e então terá motivo de orgulho em si mesmo, e não em comparação com o outro.

Gálatas 6:4 · paráfrase editorial

Paulo propõe um critério diferente: medir o próprio trabalho pelo que ele é, e não por quem está ao lado.

A vinha e as horas

O relato está no evangelho de Mateus. Jesus conta uma parábola, uma história inventada para ensinar, e começa dizendo que ela fala do Reino dos céus.

Um dono de uma vinha saiu de madrugada para contratar trabalhadores. Combinou com eles o pagamento de uma moeda por dia, e os mandou para a vinha.

Por volta das nove da manhã, saiu de novo e viu outros homens parados na praça, sem trabalho. Disse a eles: vão também para a minha vinha, e eu darei a vocês o que for justo. Eles foram. Fez o mesmo ao meio-dia e às três da tarde.

Por volta das cinco da tarde, quando o dia já estava no fim, saiu mais uma vez e encontrou outros que ainda estavam ali. Perguntou: por que vocês ficaram aqui o dia todo sem fazer nada? Eles responderam: porque ninguém nos contratou. E ele disse: vão vocês também para a vinha.

Ao anoitecer, o dono mandou o seu administrador chamar os trabalhadores e pagar a cada um, começando pelos últimos que tinham chegado. Os que foram contratados às cinco da tarde receberam uma moeda cada um.

Os primeiros, que tinham trabalhado o dia inteiro, viram isso e pensaram que receberiam mais. Mas receberam também uma moeda cada um. Então reclamaram contra o dono: esses últimos trabalharam uma hora só, e o senhor os igualou a nós, que suportamos o peso do dia e o calor.

O dono respondeu a um deles: amigo, eu não estou lhe fazendo injustiça. Você não combinou comigo uma moeda? Pegue o que é seu e vá. Eu quero dar a este último o mesmo que a você. Não me é permitido fazer o que eu quero com o que é meu? Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?

E Jesus conclui: assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros, últimos.

Repare em quatro detalhes. Os que reclamaram receberam exatamente o que foi combinado. A queixa só apareceu quando eles viram o pagamento dos outros. Os que chegaram às cinco não estavam preguiçosos: estavam esperando uma chance, e ninguém tinha contratado. E o dono responde com uma pergunta, não com uma bronca: o seu olho é mau porque eu sou bom?

A parábola trata do Reino dos céus e da generosidade de Deus, que não funciona como um salário calculado por horas. Ela não é uma regra de pagamento de trabalhadores nem uma defesa de que o patrão pode pagar o que quiser. Aplicá-la à comparação do dia a dia é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

A parábola toca num ponto delicado: a comparação aparece quando olhamos para o lado. Antes de ver o pagamento dos outros, os primeiros trabalhadores estavam satisfeitos com o combinado. A insatisfação nasceu da comparação, e não de uma perda real.

Isso não quer dizer que toda queixa seja inveja. Existem injustiças de verdade: diferença salarial sem razão, falta de reconhecimento, discriminação, herança dividida de forma desigual, esforço que não é visto. Reivindicar o que é justo é legítimo, e a parábola não deve ser usada para silenciar quem luta por direitos. O que ela convida a perguntar é: isto é injustiça, ou é comparação? Se é injustiça, vale procurar os caminhos adequados: conversar com o gestor, pedir revisão, buscar o sindicato, a Justiça do Trabalho, um advogado, ou, na família, uma mediação. Se é comparação, o trabalho é interno.

Algumas perguntas ajudam a diferenciar. Eu recebi o que combinamos? O outro recebeu algo que não me tirou nada? A minha dor vem do que perdi ou do que o outro ganhou? Se o outro tivesse recebido menos, eu me sentiria melhor, e isso é bom sinal?

Há também a figura dos que chegaram às cinco da tarde. Muita gente que hoje recebe uma oportunidade tardia passou o dia esperando, sem culpa: desempregados, quem não teve acesso a estudo, quem cuidou de familiares. Pensar assim muda o olhar: quem chegou depois nem sempre foi favorecido sem esforço, às vezes só não teve a chance antes.

O texto de Gálatas oferece um caminho: examine a sua própria obra. Perguntar o que eu fiz, com que cuidado, e o que ainda posso melhorar. Isso devolve o foco para o que depende de nós. E a generosidade do dono lembra que a bondade para com outro não diminui o que você recebeu.

Se a comparação por salários, bens ou reconhecimento tem tirado a sua paz, converse com alguém de confiança e, se for persistente, com um psicólogo. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda agora: o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito.

Quando o outro recebe o que você achava que era seu

Separe em duas colunas: o que é injustiça concreta e o que é comparação. Na primeira, escolha um passo: conversar, pedir revisão, procurar orientação. Na segunda, escolha um passo interno: escrever o que você conquistou, agradecer o combinado, evitar olhar o que os outros recebem.

Se for conflito familiar por herança ou divisão, procure mediação e orientação jurídica, e converse com calma antes de tomar atitudes.

Perguntas para refletir

Estou diante de injustiça ou de comparação? Eu recebi o que foi combinado? Quem chegou depois de mim e talvez estivesse esperando uma chance? O que eu posso examinar na minha própria obra?

Um passo para hoje

Escreva duas listas: o que me parece injusto e o que me incomoda por comparação. Escolha um passo concreto para a primeira. Escreva três coisas que você conquistou, sem olhar para ninguém. Depois, leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba a queixa que você carrega e a pessoa a quem ela se dirige. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine uma pergunta feita sem acusação: o que você realmente perdeu? Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, eu me sinto passado para trás. Vejo o que o outro recebeu e sinto que o meu esforço foi pouco visto. Tu conheces o que é justiça e o que é comparação no meu coração.

Dá-me coragem para reivindicar o que é justo e humildade para soltar o que é só comparação. Ensina-me a examinar a minha obra sem me medir pelos outros. Livra-me de um olhar mau diante da bondade alheia. Agradeço-te porque a tua generosidade não é medida por horas. Amém.

Continue sua jornada

Leia Mateus, capítulo vinte, versículos um a dezesseis, na íntegra. Depois, leia Gálatas, capítulo seis, versículos quatro e cinco, e Romanos, capítulo nove, versículos catorze a dezesseis, para ver como a Bíblia fala de generosidade e de medida.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Mateus 20, Gálatas 6). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

Enviar no WhatsApp

Outros ensinamentos