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Mãe à porta do quarto vazio do filho, entre caixas de mudança, segura um agasalho dele junto ao peito.
Comunicação e relacionamentos

1 Samuel 1:19–28

Quando é hora de deixar ir

Primeiro Samuel, capítulo um, versículos dezenove a vinte e oito, mostra uma mãe que entrega o filho tão pedido ao serviço de Deus e continua presente à distância

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Um dia, o filho vai. Para estudar em outra cidade, para um emprego, para morar sozinho. A casa fica diferente. O quarto, mais silencioso. A mesa, com um lugar a menos. Muitos pais sentem orgulho e, ao mesmo tempo, um vazio que não sabem explicar. Se você está nessa fase, ou se aproxima dela, a Bíblia tem uma história para você.

A Palavra de Deus

Primeiro Samuel, capítulo um, versículos vinte e sete e vinte e oito, em paráfrase editorial:

Por este menino eu orava, e o Senhor me deu o que eu havia pedido. Por isso também eu o entrego ao Senhor por todos os dias da sua vida.

1 Samuel 1:27–28 · paráfrase editorial

Quem diz essas palavras é Ana, a mãe. Ela entrega o filho que tanto desejou. E o texto mostra que entregar não é perder o amor.

Ana e Samuel

O relato está no primeiro livro de Samuel. Ana era uma mulher que, durante muito tempo, havia pedido a Deus um filho, em oração e com lágrimas. Quando o Senhor lhe deu um menino, ela o chamou de Samuel, explicando: porque o pedi ao Senhor.

Chegou o tempo da viagem anual da família para oferecer sacrifícios. O marido, Elcana, foi com toda a casa. Mas Ana ficou. Disse que só levaria o menino quando ele fosse desmamado, para que ele se apresentasse ao Senhor e ficasse lá para sempre. O marido concordou. E Ana amamentou o filho até que ele estivesse pronto.

Imagine esse tempo. Meses ou anos de cuidado, de colo, de noites em claro, com a decisão já tomada no coração. O texto não descreve o que ela sentia, mas é fácil imaginar o peso de cuidar sabendo que um dia teria de entregar.

Quando chegou a hora, Ana subiu com o menino. Levou três novilhos, farinha e vinho. O menino ainda era pequeno. Ela o apresentou a Eli e disse: eu sou a mulher que orava aqui ao Senhor, e este é o menino por quem eu orava. O Senhor me concedeu o que pedi. Por isso o entrego ao Senhor por todos os dias da sua vida.

O texto termina esse trecho dizendo que o menino adorou ao Senhor naquele lugar.

Há um detalhe bonito que vem logo depois, no capítulo seguinte. O texto conta que a mãe de Samuel lhe fazia, a cada ano, uma pequena túnica e a levava quando subia com o marido para o sacrifício. Ou seja, ela não sumiu da vida do filho. Continuou presente, de longe, com um gesto concreto, um pouco a cada ano.

Repare em três detalhes. Ana entregou como quem cumpre uma oração, e não como quem perde. Foi até o lugar, apresentou o filho e explicou o que fazia. E continuou a amar, com pequenos gestos, mesmo à distância.

A história trata de Ana, de Samuel e do serviço no templo. Relacioná-la à saída dos filhos de casa é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

Deixar um filho ir é uma das tarefas mais difíceis e mais necessárias de quem cria. E hoje ela vem com situações novas. Os filhos saem para estudar em outra cidade ou país, para um trabalho distante, para morar sozinhos ou em repúblicas. A distância, agora, tem celular: mensagens, ligações, videochamadas e localização em tempo real. Isso aproxima, mas também pode virar controle e ansiedade.

Muitos pais relatam um conjunto de sentimentos: orgulho e tristeza, alívio e culpa, preocupação com o que o filho come, como dorme, com quem anda. Alguns ligam todos os dias, mandam dezenas de mensagens e se magoam quando não há resposta. Outros, no vazio da casa, descobrem que o casamento mudou, que a rotina girava em torno dos filhos e que é preciso redescobrir quem somos sem eles. Isso é conhecido como ninho vazio e é uma fase real.

A história de Ana ajuda de duas formas. Primeiro, entregar é um ato de confiança, que pode ser feito com oração. Segundo, o amor continua em gestos pequenos e regulares, como a túnica de cada ano: uma mensagem curta, um áudio, uma visita, uma comida preferida enviada, um recado sem cobrança.

Em Salmos, capítulo cento e vinte e sete, versículos três e quatro, o salmista diz, em paráfrase editorial, que os filhos são herança do Senhor, como flechas na mão de um guerreiro. Flechas existem para ser lançadas, e não guardadas.

E em Provérbios, capítulo três, versículos cinco e seis, o sábio escreve, em paráfrase editorial, que devemos confiar no Senhor de todo o coração, sem nos apoiar apenas no nosso entendimento, e reconhecê-lo em todos os caminhos, e ele endireitará as nossas veredas.

Esses textos não prometem que a saudade passa, nem que o filho não vai passar por dificuldades. Mostram que deixar ir faz parte do amor e que a confiança pode substituir o controle.

Se a tristeza ou a ansiedade pela saída do filho estiver muito intensa, a ponto de atrapalhar o sono, o trabalho ou a vida, procure um psicólogo. Ninho vazio também pode doer, e merece cuidado.

Quando é hora de deixar ir

Comece conversando com o seu filho sobre como vocês querem se comunicar. Combinem a frequência: um telefonema por semana, mensagens quando houver novidade, um momento para as videochamadas. Pergunte o que ele prefere. Respeite o ritmo dele, que está em uma fase intensa de adaptação.

Depois, crie os seus próprios gestos de túnica: uma carta, um pacote, uma mensagem de bom dia sem cobrança. E cuide de você. Reencontre o casal ou os seus amigos, retome atividades, cuide da saúde. Quem se cuida pode amar à distância com mais leveza. Evite usar a localização para vigiar e as mensagens para cobrar. Se algo preocupar, converse com carinho. E reze: entregue a Deus o que você não pode mais controlar.

Perguntas para refletir

O que eu sinto quando penso na saída do meu filho? Como podemos combinar a nossa comunicação? Que pequeno gesto, como a túnica de Ana, eu posso repetir? O que eu quero cuidar na minha própria vida neste momento?

Um passo para hoje

Converse com o seu filho sobre como vocês querem se falar nas próximas semanas. Escolha um pequeno gesto regular, como uma mensagem no domingo ou um áudio. E escolha uma atividade sua, só para você, que ficou para depois. Leve tudo a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Pense no seu filho e no lugar para onde ele vai, ou foi. Perceba o que você sente: orgulho, saudade, medo, vazio. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine que você coloca o seu filho nas mãos de Deus, como Ana colocou. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Senhor, chegou a hora de deixar o meu filho ir. Tu conheces o meu orgulho, a minha saudade e o meu medo. Hoje eu o entrego a ti, como a minha oração que se cumpriu.

Ensina-me a amar à distância, com gestos pequenos e sem controle. Cuida dele onde eu não posso estar. Dá-me coragem para cuidar de mim, para reencontrar o que eu deixei de lado e para confiar. Agradeço-te pelos anos que tivemos juntos e por todos os que ainda virão. Amém.

Continue sua jornada

Leia Primeiro Samuel, capítulo um, versículos dezenove a vinte e oito, na íntegra. Depois, leia Primeiro Samuel, capítulo dois, versículos dezoito a vinte e um, e Salmos, capítulo cento e vinte e sete, para ver como a Bíblia fala de filhos e de confiança.

Sobre as citações bíblicas: as passagens citadas foram apresentadas em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (1 Samuel 1, 1 Samuel 2, Salmos 127, Provérbios 3). O relato bíblico foi recontado em palavras próprias; o que o texto imagina ou interpreta está sinalizado ao longo da reflexão.

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