Pular para o conteúdo
Mulher de avental, com as chaves na mão e os braços cruzados, olha pensativa da porta de uma loja ao entardecer; no balcão, uma Bíblia aberta.
Inteligência emocional

Lucas 15:25–32

Ninguém vê o que eu faço

Lucas, capítulo quinze, versículos vinte e cinco a trinta e dois, mostra um pai saindo da festa para falar com o filho que ficou do lado de fora

Ouça este ensinamento

Narração completa

0:00--:--

6 min de leitura

Há quem passe a vida inteira fazendo o que é certo: chegando cedo, cumprindo o combinado, ajudando em silêncio. E, num dia qualquer, vê alguém que errou muito ser recebido com festa. O coração aperta. A pergunta chega sem pedir licença: e o meu esforço, ninguém vê? Se você já sentiu isso, Jesus contou uma história para você.

A Palavra de Deus

Lucas, capítulo quinze, versículos trinta e um e trinta e dois, em paráfrase editorial:

Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas era preciso festejar e se alegrar, porque este seu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado.

Lucas 15:31–32 · paráfrase editorial

Essas são as palavras de um pai ao filho que ficou irritado do lado de fora. Ele não discute nem o expulsa. Chama de filho e fala de irmão.

O filho que ficou no campo

A passagem faz parte de uma parábola contada por Jesus. Nela, um pai tem dois filhos. O mais novo pede a sua parte da herança, vai embora, gasta tudo e, quando não tem mais nada, volta para casa. O pai o recebe com abraço e manda preparar uma grande festa.

É nesse ponto que a nossa passagem começa. O filho mais velho estava no campo, trabalhando. Quando voltou e se aproximou da casa, ouviu música e danças. Chamou um dos servos e perguntou o que estava acontecendo. O servo explicou: o seu irmão voltou, e o seu pai mandou matar o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.

O filho mais velho ficou irado e se recusou a entrar. O texto não descreve os pensamentos dele, mas é fácil imaginar o peso de cada ano de trabalho passando pela memória enquanto a música tocava lá dentro.

O pai saiu e insistiu com ele. E o filho respondeu com tudo o que estava guardado. Disse que sempre serviu ao pai, que nunca desobedeceu a nenhuma ordem e que nunca recebeu nem um cabrito para festejar com os amigos. Depois, disse que o outro, que havia gastado os bens com prostitutas, tinha ganhado o bezerro cevado. Repare que ele não disse meu irmão. Disse este seu filho.

O pai não discutiu os fatos. Respondeu com afeto. Disse que o filho estava sempre com ele e que tudo o que era dele também era do filho. E concluiu que era justo festejar, porque este seu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado. O pai devolveu a palavra irmão.

O texto termina sem dizer se o filho mais velho entrou na festa. A parábola deixa a porta aberta.

Repare em dois detalhes. O pai foi atrás dos dois filhos: correu ao encontro do mais novo, que voltava, e saiu para falar com o mais velho, que estava do lado de fora. E, durante todos aqueles anos, o filho mais velho tinha tudo o que o pai possuía, mas parece não ter se sentido livre para aproveitar. O texto não diz se ele chegou a pedir.

A parábola trata do amor do Pai pelos que se perderam e pelos que ficaram, e Jesus a conta a pessoas que murmuravam contra ele por receber pecadores. Relacioná-la ao ressentimento que sentimos é uma aplicação para a nossa vida, não o assunto original do relato.

Compreendendo o ensinamento

O ressentimento do filho mais velho tinha uma base: ele trabalhou muito e se sentiu sem reconhecimento. A parábola não ridiculariza essa dor. O pai a escuta e responde com carinho. Mas também mostra que a mágoa, guardada, vai endurecendo o coração e deixando a pessoa do lado de fora da alegria.

Em Hebreus, capítulo doze, versículo quinze, o autor escreve, em paráfrase editorial, que devemos cuidar para que nenhuma raiz de amargura brote e perturbe, contaminando muitos. Raiz cresce por baixo da terra, sem que ninguém veja. Quando aparece, já está funda.

E em Colossenses, capítulo três, versículo treze, Paulo escreve, em paráfrase editorial, que devemos suportar uns aos outros e perdoar, se alguém tiver queixa de outro, assim como o Senhor nos perdoou. Perdoar não é dizer que a dor não existiu. É escolher não deixar que ela governe a nossa vida.

Esses textos não prometem que o reconhecimento vai chegar, nem pedem que fiquemos calados diante de uma injustiça real. Se o seu esforço tem sido ignorado ou explorado, conversar e estabelecer limites também é cuidar de si. Mostram que o ressentimento pode ser levado a Deus antes de virar amargura.

Quando ninguém vê

Comece dando nome ao que você esperava. O que você queria que alguém tivesse notado? Um agradecimento, um descanso, uma palavra? Reconhecer isso, como o filho mais velho fez diante do pai, é o primeiro passo.

Depois, diga a quem precisa ouvir, de forma clara e sem acusar, o que você sente e o que precisa. Muita mágoa vem de esperar que os outros adivinhem. E olhe também para o que já é seu: tudo o que o pai tinha era do filho. Pergunte-se o que você já tem e ainda não aproveitou. Por fim, leve o ressentimento a Deus, antes que ele vire raiz. Perdoar pode levar tempo, e dar o primeiro passo já conta.

Perguntas para refletir

O que eu esperava que alguém notasse? A quem eu preciso dizer o que sinto, de forma clara e sem acusar? O que já é meu e eu não estou aproveitando? Em que parte da minha vida estou do lado de fora da festa?

Um passo para hoje

Escreva a frase: “Eu esperava que alguém notasse…” e, abaixo: “O que eu preciso dizer, com calma, é…”. Escolha uma pessoa a quem possa dizer isso esta semana e leve as duas frases a Deus, em oração.

Momento de oração

Faça uma pausa diante de Deus. Perceba o que você tem guardado, o trabalho que ninguém viu, a palavra que não veio, o reconhecimento que não chegou. Respire fundo e solte o ar devagar. Imagine o Pai saindo da festa para falar com você, como saiu para falar com o filho mais velho. Fique alguns instantes em silêncio.

Você pode falar com Deus com suas próprias palavras. Se desejar, use esta oração como sugestão:

Pai, há uma mágoa em mim que eu não costumo dizer. Trabalhei, servi, cumpri o que me cabia e, às vezes, tenho a sensação de que ninguém viu. Tu conheces cada esforço e cada ano. Hoje eu os coloco diante de ti.

Não me deixes ficar do lado de fora da alegria. Ajuda-me a dizer com calma o que sinto e o que preciso. Lembra-me de que tudo o que é teu está ao meu alcance. Ensina-me a perdoar, a cuidar da raiz antes que ela cresça e a chamar de irmão quem eu não consigo chamar. Agradeço-te porque tu sais para me encontrar. Amém.

Continue sua jornada

Leia Lucas, capítulo quinze, versículos onze a trinta e dois, a parábola completa. Depois, leia Hebreus, capítulo doze, versículos catorze a dezessete, e Colossenses, capítulo três, versículos doze a quatorze, para ver como a Bíblia trata a amargura e o perdão.

Sobre as citações bíblicas: Lucas 15:31–32, Hebreus 12:15 e Colossenses 3:13 foram apresentados em paráfrase editorial, conferida quanto ao sentido com edições de Almeida (Lucas 15, Hebreus 12, Colossenses 3). A parábola do filho mais velho (Lucas 15:25–32, com o início em 15:11–24) foi recontada em palavras próprias; os pensamentos do filho são imaginação, sinalizada no texto.

Enviar no WhatsApp

Outros ensinamentos